Análise: Como Kissinger negociaria a paz com o Irã
Responsável por negociações decisivas no século XX, Kissinger aproximou Washington de Pequim, promoveu a détente com Moscou e redefiniu a diplomacia de paz

Uma negociação de paz pressupõe poder organizado dos dois lados da mesa. Essa condição continua em dúvida no Irã quase cinco meses depois da morte de Ali Khamenei. Antes de discutir urânio, petróleo ou sanções, Washington precisa saber quem, em Teerã, pode assumir compromissos e fazê-los cumprir. O Brent na casa dos US$ 91 mostra que essa incerteza já tem preço.
Henry Kissinger foi conselheiro de Segurança Nacional e secretário de Estado dos Estados Unidos nos governos Richard Nixon e Gerald Ford. Morto em 2023, tornou-se um dos principais formuladores da diplomacia do século XX ao combinar equilíbrio de poder, negociações reservadas e acordos graduais para conter conflitos. Seu legado permanece marcado por êxitos estratégicos e controvérsias humanitárias.
Vale, então, um exercício de gabinete: o que Henry Kissinger faria diante do impasse entre EUA e Irã? Não se trata de elogio. Sua diplomacia deixou custos humanos do Camboja ao TimorLeste. Trata-se de reconhecer a influência de um método concebido para transformar guerras em ordens negociáveis, mesmo incompletas e moralmente incômodas.
Kissinger não perguntaria qual solução seria mais justa. Procuraria um arranjo que tornasse a continuação da guerra mais cara e menos racional para todos. Para isso, identificaria primeiro o que cada lado teme perder.
Washington e Israel receiam que Teerã reconstrua sua capacidade nuclear em instalações protegidas. Segundo avaliação da inteligência israelense relatada pelo Wall Street Journal, milhares de centrífugas teriam sido transferidas para túneis em Pickaxe Mountain, perto de Natanz. A informação não foi confirmada de maneira independente, mas alimenta o temor de que os ataques tenham atingido estruturas conhecidas sem eliminar a capacidade de reconstrução.
Teerã teme pela sobrevivência do regime. Ali Khamenei concentrava a palavra final sobre as Forças Armadas, a Guarda Revolucionária, o programa nuclear e a política regional. Seu filho Mojtaba foi escolhido líder supremo em 8 de março, mas não herdou automaticamente a mesma autoridade.
Segundo relatos da imprensa, ferido nos ataques israelenses e americanos que atingiram o Irã no início do conflito, Mojtaba não fez nenhuma aparição pública confirmada desde a nomeação. Mensagens atribuídas a ele foram transmitidas por intermediários, enquanto a Guarda Revolucionária ampliou sua influência. Não está claro, portanto, quem poderia impor uma concessão sobre centrífugas, mísseis ou apoio a grupos armados.
É aqui que o método de Kissinger encontraria seu maior limite. Ele negociava com dirigentes apoiados por estruturas centralizadas, capazes de transformar compromissos de cúpula em decisões de Estado. Equilíbrio de poder pressupõe poder organizado do outro lado da mesa. Lideranças como Mao Tsé-tung, Leonid Brejnev, Anwar Sadat, Hafez al-Assad, Golda Meir, Yitzhak Rabin, dentre diversos outros. Sem um interlocutor incontestável do lado de Teerã, a negociação exige mais tempo, fiscalização e garantias externas.
Kissinger também esperaria que os adversários se aproximassem da exaustão. A escalada atual, com o petróleo pressionado e os houthis ameaçando o tráfego por Bab-el-Mandeb, ainda sugere que os dois lados testam limites.
Seu ponto de partida seria incômodo: Washington não consegue impor todos os seus objetivos sem elevar os custos econômicos e militares. Teerã não pode derrotar os Estados Unidos, mas consegue tornar uma vitória americana excessivamente cara. É nesse espaço que surgiria a negociação.
Kissinger separaria o urgente do estrutural. Um primeiro entendimento suspenderia os ataques, reabriria o Estreito de Ormuz e criaria um canal militar para investigar incidentes. Washington ofereceria autorizações temporárias para exportações de petróleo, liberação gradual de ativos e suspensão condicionada de sanções.
Teerã teria de garantir a navegação por Ormuz e usar sua influência sobre houthis, Hezbollah e outros grupos para reduzir os ataques. Somente depois começaria a fase nuclear, com o retorno dos inspetores e a reconstrução do inventário de urânio, centrífugas e equipamentos.
A ambiguidade construtiva poderia adiar a disputa sobre o direito iraniano de enriquecer urânio. Mísseis e grupos armados ficariam para uma etapa posterior. A China poderia sustentar compras autorizadas de petróleo, enquanto Moscou seria pressionada a não fornecer equipamentos capazes de esvaziar o acordo.
Kissinger não entregaria reconciliação, mas um cálculo: fazer com que romper o pacto custasse mais do que mantê-lo. Talvez fosse suficiente para o Brent deixar de acompanhar cada ataque como se o futuro do mercado dependesse da próxima noite.



