Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Análise: Groenlândia expõe novo padrão de risco institucional global

Crise no Ártico revela reprecificação de risco, custo de capital, cadeias críticas e sobrevivência da Otan

Nuuk, capital da Groenlândia  • 05/09/2025 REUTERS/Hannibal Hanschke
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Para mercados e investidores, a crise em torno da Groenlândia não diz respeito à posse de uma área no Ártico, mas ao precedente institucional que emerge quando presença militar, tarifas comerciais e acesso a insumos críticos passam a ser usados de forma combinada como instrumentos de política externa.

Esse método desencadeia uma reprecificação de risco, visível no aumento da volatilidade implícita, eleva prêmios exigidos pelo mercado e afeta decisões de investimento muito além da região.

A pressão política dos Estados Unidos, somada ao reforço militar europeu no Ártico, à ameaça de tarifas comerciais e ao peso crescente dos minerais estratégicos, transforma a Groenlândia em um teste de previsibilidade institucional e coordenação entre aliados.

Para o mercado, o foco não é o território em si, mas até que ponto instrumentos tradicionalmente separados — defesa, comércio e cadeias de suprimento — passam a operar integradamente.

Presença militar europeia como sinal de contenção

A ampliação da presença militar europeia na Groenlândia tem um objetivo claro: reduzir ambiguidades estratégicas e desestimular iniciativas unilaterais, mesmo que em escala limitada, como a instalação de destacamentos permanentes fora dos arranjos já existentes.

Não se trata de preparar um confronto entre aliados, mas de impedir a criação de fatos consumados que alterem o equilíbrio político na aliança.

Ao reforçar exercícios, vigilância e presença rotativa, sob liderança política da Dinamarca, os europeus elevam o custo diplomático de movimentos imprevisíveis.

Essa estratégia também lança luz sobre o futuro da Otan: a crise expõe uma aliança cada vez mais assimétrica, na qual países europeus passam a discutir mecanismos de dissuasão não apenas contra adversários externos, mas também como forma de gestão de risco interno.

Se esse padrão se consolidar, a Otan tende a se tornar mais operacionalmente europeia e politicamente mais fragmentada — um desdobramento que afeta diretamente sua coesão, credibilidade e capacidade de coordenação em crises futuras.

Terras raras: o elo entre geopolítica e coerção econômica

A centralidade da Groenlândia não se explica apenas por sua posição geográfica. O território abriga, potencialmente, algumas das maiores reservas conhecidas de terras raras, insumos críticos para transição energética, defesa, semicondutores e indústria de alta tecnologia.

Nesse contexto, minerais críticos deixam de ser apenas um ativo econômico e passam a integrar a arquitetura de poder.

Cartaz em manifestação pró-Groenlândia diz “Groenlândia rejeitou Trump — Sua vez América”. Centenas de pessoas participaram do protesto em frente à embaixada dos EUA em Copenhague. • Reprodução/Reuters
Cartaz em manifestação pró-Groenlândia diz “Groenlândia rejeitou Trump — Sua vez América”. Centenas de pessoas participaram do protesto em frente à embaixada dos EUA em Copenhague. • Reprodução/Reuters

A disputa não é apenas por presença no Ártico, mas por influência futura sobre cadeias de suprimento que moldarão competitividade industrial e segurança econômica nas próximas décadas.

Para investidores, esse vetor adiciona uma camada estrutural ao risco: decisões tomadas hoje podem definir acesso — ou exclusão — de mercados estratégicos amanhã.

Tarifas, volatilidade e o redesenho do comércio

A ameaça de tarifas contra países europeus que enviarem forças à Groenlândia desloca a crise para o comércio internacional.

No curto e médio prazo, porém, não há substituição rápida de parceiros: contratos, logística, certificações e financiamento impõem inércia. O efeito dominante é o aumento da volatilidade comercial e da incerteza regulatória.

Nesse ambiente, empresas tendem a adiar decisões de investimento, renegociar cadeias e incorporar prêmios de risco mais elevados ao custo de capital.

Ao longo do tempo, alguns blocos podem capturar ganhos relativos. O Mercosul, especialmente em segmentos ligados ao agronegócio, pode se beneficiar pela elasticidade da oferta e pela experiência em redirecionar fluxos comerciais.

A China, com escala industrial e logística integrada, tende igualmente a ocupar espaços deixados por fornecedores americanos eventualmente sancionados.

Ainda assim, o custo inicial é difuso e generalizado: comércio mais caro, mais volátil e menos previsível.

Cenários e leitura para investidores

O cenário mais provável é o de uma descompressão negociada parcial, ainda que com sanções tarifárias aplicadas a países europeus que optem por ampliar sua presença militar.

Um segundo caminho envolve escalada econômica controlada, com tarifas e retaliações graduais contaminando expectativas e elevando prêmios de risco.

O terceiro, menos provável, mas de alto impacto, combina coerção econômica, disputa por minerais críticos e tensão política recorrente, suficiente para travar investimentos e elevar estruturalmente o custo de capital.

Para investidores, a crise da Groenlândia é menos sobre o Ártico e mais sobre método. Ela sinaliza um ambiente internacional com alianças menos previsíveis, comércio mais politizado e competição crescente por recursos estratégicos — um contexto que pressiona o WACC (Custo Médio Ponderado de Capital), reduz apetite por CAPEX (Despesas de Capital) de longo prazo e favorece decisões mais defensivas, com impacto direto sobre crescimento potencial e valuation global.