Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Análise: Terremoto de 7,1 testa disciplina sísmica do Japão

Danos em Kumamoto mostram que engenharia, alertas e planejamento reduzem perdas, mas não eliminam o risco de vítimas, réplicas e interrupções econômicas

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Cerca de 300 mil pessoas foram orientadas a procurar abrigos emergenciais após o forte terremoto que atingiu Kumamoto, no sul do Japão. Aproximadamente 48 mil residências ficaram sem energia, trens e voos foram suspensos e fábricas interromperam suas operações. Em poucos minutos, uma emergência sísmica tornou-se também um teste para a infraestrutura e para a capacidade de resposta da terceira maior economia do mundo.

A Agência Meteorológica do Japão estimou magnitude 7,1, profundidade de 10 quilômetros e intensidade máxima 7 na escala japonesa. O Serviço Geológico dos Estados Unidos calculou magnitude 6,8 no terremoto desta terça-feira (28). A diferença entre as medições não altera a conclusão essencial: foi um terremoto raso, mas capaz de produzir movimentos extremamente violentos nas áreas próximas à ruptura.

O balanço ainda é provisório. Há dezenas de feridos, pessoas desaparecidas, edifícios parcialmente destruídos, incêndios, estradas danificadas e prejuízos ao Castelo de Kumamoto. Em um shopping, uma explosão de causa ainda desconhecida foi seguida por colapso estrutural e operações de busca.

Esses danos não contradizem a reputação japonesa de preparo. Mostram seus limites. Nenhum país consegue tornar uma cidade imune a um terremoto dessa intensidade. O que a prevenção pode fazer é reduzir o número de vítimas e impedir que falhas localizadas desencadeiem uma sequência descontrolada de colapsos.

O Japão construiu sua capacidade de reação com normas rigorosas de construção, fiscalização, reforço de prédios antigos, treinamento da população e sistemas de alerta. Esses mecanismos podem oferecer apenas alguns segundos de antecedência, mas esse intervalo pode ser suficiente para reduzir a velocidade de um trem, interromper uma linha industrial ou permitir que uma pessoa busque um local com maior proteção.

A resposta em Kumamoto seguiu essa lógica. Equipes de emergência foram mobilizadas, instalações industriais retiraram trabalhadores e as usinas nucleares próximas passaram por inspeções, sem registro de anormalidades. O sistema não impediu o desastre, mas começou a contê-lo antes mesmo de existir um balanço completo dos danos.

O alerta de tsunami foi igualmente preventivo. A possibilidade inicial de ondas próximas de um metro levou moradores a se afastarem da costa. Nenhum tsunami foi observado, e o aviso acabou suspenso em menos de duas horas.

A chance de uma onda destrutiva era reduzida porque a ruptura ocorreu em terra e apresentou movimento predominantemente horizontal. Grandes tsunamis normalmente dependem de um deslocamento vertical expressivo do fundo oceânico. A ameaça associada ao terremoto principal passou, embora qualquer novo abalo com localização ou mecanismo diferente exija outra avaliação.

O risco mais concreto agora está na continuidade da atividade sísmica. Segundo a Agência Meteorológica do Japão, um novo tremor de magnitude 6,1 foi registrado às 17h08, cerca de 40 minutos depois do abalo principal. As autoridades recomendam atenção especial durante dois ou três dias e admitem a possibilidade de movimentos fortes ao longo de aproximadamente uma semana.

A prudência é reforçada pela própria história de Kumamoto. Em 2016, um terremoto de magnitude 6,5 foi sucedido, cerca de 28 horas depois, por outro de 7,3. Não há elementos para afirmar que a sequência atual seguirá o mesmo caminho. Há, entretanto, razões objetivas para não tratar automaticamente o primeiro grande tremor como o maior.

As consequências econômicas também permanecem abertas. Kumamoto tornou-se um polo estratégico de semicondutores e manufatura avançada. TSMC, Sony e Fujifilm retiraram trabalhadores de suas unidades, enquanto a Tokyo Electron suspendeu temporariamente a produção. A Honda interrompeu as operações de sua fábrica de motocicletas na província.

Em cadeias globais organizadas com poucos fornecedores e estoques reduzidos, paralisações locais podem atravessar fronteiras. A extensão do impacto dependerá da duração das interrupções, dos danos aos equipamentos e da velocidade com que transportes, energia e produção forem restabelecidos.

É nesse ponto que a experiência japonesa oferece sua principal lição. Resiliência não é apenas reconstruir depois do desastre. É combinar engenharia, informação, treinamento e continuidade operacional para reduzir as perdas antes que elas se tornem irreversíveis.

O Japão não controla os terremotos. Mas controla melhor do que a maioria dos países a parcela do desastre que depende de decisões humanas. Essa diferença salva vidas, protege investimentos e encurta o caminho entre a emergência e a recuperação.