Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Colômbia: Terremoto e vulcão foram coincidência?

Proximidade entre o forte terremoto e a atividade do Puracé levanta dúvidas sobre o que realmente conecta os dois fenômenos

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PEDO terremoto de magnitude 7,4 que atingiu o oeste da Colômbia na segunda-feira (10) deixou mais de 200 mortos, centenas de feridos e um cenário de destruição especialmente grave em cidades como Cali e Pereira.

O tremor ocorreu às 7h34 (horário local), próximo a San José del Palmar, no departamento de Chocó, e foi seguido por uma réplica com magnitude 5,0 menos de uma hora depois, segundo o USGS (Serviço Geológico dos Estados Unidos).

Mais tarde, o vulcão Puracé voltou a emitir cinzas, compondo uma sequência capaz de sugerir uma conclusão imediata: o terremoto teria provocado uma reação do vulcão.

A proximidade entre os acontecimentos torna essa interpretação compreensível, mas os dados disponíveis apontam em outra direção.

Fenômenos diferentes

Terremoto e atividade vulcânica fazem parte do mesmo grande contexto geológico dos Andes colombianos, sem que isso signifique que o primeiro tenha provocado o segundo. Para entender essa diferença, é preciso observar o que acontece muito abaixo da superfície.

A origem do terremoto está na dinâmica da placa de Nazca, que mergulha sob a placa Sul-Americana. O USGS estima que o tremor ocorreu a uma profundidade próxima de 110 quilômetros.

Nessa região, a placa de Nazca já está muito abaixo da superfície, mas continua submetida a fortes tensões. O terremoto ocorreu quando parte dessas rochas se rompeu, liberando abruptamente a energia acumulada.

Essa profundidade também ajuda a compreender por que o tremor foi sentido em uma área tão extensa. Embora a energia perca intensidade no caminho até a superfície, terremotos profundos podem espalhar suas ondas por grandes distâncias. No caso colombiano, o abalo foi percebido muito além da região próxima ao epicentro.

O Puracé está ligado ao mergulho da Placa de Nazca sob a América do Sul, mas de outra maneira. À medida que essa placa desce para grandes profundidades, ocorrem transformações que favorecem a formação de magma nas regiões acima dela.

Parte desse material pode subir em direção à superfície e alimentar os numerosos vulcões existentes ao longo dos Andes.

É essa dinâmica que permite compreender por que terremotos e vulcões são tão frequentes na mesma faixa da América do Sul. Ambos estão relacionados ao movimento das placas tectônicas, mas seguem processos diferentes.

Sem relação direta

Compartilhar uma origem geológica regional não significa que um terremoto específico necessariamente provoque uma mudança em determinado vulcão.

No caso do Puracé, a própria sequência dos acontecimentos enfraquece a hipótese de uma relação direta. Quando ocorreu o terremoto, o vulcão já estava em alerta laranja e atravessava uma fase de maior atividade.

O monitoramento vinha registrando intensa liberação de gases, emissões de cinzas e alterações em outros indicadores acompanhados pelo Serviço Geológico Colombiano.

Um boletim extraordinário do órgão informou que cinco emissões de cinzas haviam sido registradas desde as 14 horas do domingo (9), portanto, muitas horas antes do terremoto.

Uma nova emissão foi observada às 10h34 de segunda-feira, cerca de três horas depois do abalo principal, mas fazia parte de uma sequência que já estava em andamento.

A possibilidade de uma conexão entre os dois fenômenos também foi abordada diretamente pelo Serviço Geológico Colombiano.

Em vídeo publicado em 10 de agosto nos canais oficiais do órgão, Cristian Santacoloma (SGC), coordenador do Observatório Vulcanológico e Sismológico de Popayán, explicou que o terremoto de San José del Palmar não tinha relação com a atividade do Puracé.

O SGC acrescentou que, após o forte tremor, não foram observadas mudanças adicionais no comportamento do vulcão nem da cadeia vulcânica Los Coconucos.

O episódio colombiano mostra como fenômenos naturais ocorridos quase simultaneamente podem produzir uma impressão enganosa de causa e efeito.

O terremoto e o Puracé fazem parte de uma região moldada pelo mergulho da placa de Nazca sob a América do Sul e, nesse sentido, compartilham uma mesma história geológica.

Isso é diferente, entretanto, de afirmar que um acontecimento desencadeou o outro.

Em meio à dimensão humana da tragédia, com vítimas, cidades atingidas e equipes ainda trabalhando entre os escombros, compreender corretamente esses processos também é uma forma de combater informações equivocadas.

A proximidade entre os dois fenômenos impressiona, mas as evidências disponíveis indicam que dividiram o mesmo momento e o mesmo cenário tectônico, não uma relação direta de causa e efeito.