Análise: Calor extremo traz risco de 13 mil mortes ao Brasil
Projeção até fevereiro mostra por que alertas climáticos precisam orientar saúde pública e proteção ao trabalho

O Brasil chega ao próximo verão com uma vantagem rara diante de um evento extremo: meses de antecedência. O Climate Impact Lab, centro de pesquisa ligado às universidades de Chicago e da Califórnia em Berkeley, projeta 13,3 mil mortes adicionais associadas ao calor entre setembro de 2026 e fevereiro de 2027, em comparação com a média de 1996 a 2025. Cerca de 8 mil podem ocorrer entre dezembro e fevereiro.
A projeção não equivale a uma contagem antecipada de vítimas. O modelo combina previsões sazonais do Centro Europeu de Meteorologia, o ECMWF, com relações históricas entre temperatura e mortalidade em 24.378 regiões, considerando vulnerabilidade e capacidade de adaptação. Os detalhes completos da metodologia ainda serão publicados em artigo revisado por pares.
O Brasil aparece como o país mais afetado da América Latina, com 2,3 mil mortes projetadas no Pará, 1,3 mil no Maranhão e cerca de 1,2 mil no Amazonas e na Bahia. Essa distribuição sugere que clima, renda, moradia e capacidade de adaptação produzem riscos muito diferentes no país.
Em escala global, o atual super El Niño deve produzir 44% mais dias extremamente quentes do que um ano normal e elevar em cerca de 1,2 °C a temperatura média das áreas continentais. No Brasil, o Painel El Niño, boletim conjunto do INPE, INMET e outros órgãos federais, apontou em setembro mais de 90% de probabilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte entre setembro e novembro.
Os efeitos econômicos já aparecem em dados brasileiros. Estudo publicado em 2024 no Journal of Economic Behavior & Organization, com dados da RAIS (Relação Anual de Informações Sociais), concluiu que choques trimestrais de calor aumentam a probabilidade de demissões formais na indústria de transformação. O efeito é maior em ocupações manuais e rotineiras, em geral com menos margem para reduzir a exposição.
O Ministério da Saúde também se prepara. Seu plano para o El Niño 2026–2027 define outubro a março como janela crítica. No Nordeste e no Sudeste, segundo o ministério, estão previstos mapas de calor, zonas de resfriamento, pontos de hidratação e protocolos assistenciais. No Norte e no Centro-Oeste, a preparação considera, além de seca e queimadas, episódios de calor intenso, com medidas de resfriamento e hidratação.
O AdaptaSUS prevê ainda uma diretriz nacional para emergências de saúde pública provocadas por calor extremo. Às vésperas de outubro, a questão relevante é saber em que estágio está essa diretriz e como será articulada com estados, municípios e medidas de proteção aos trabalhadores mais expostos.
O país já dispõe de previsão climática, identificação das áreas vulneráveis e evidências dos efeitos sobre saúde e emprego. A resposta ao próximo verão poderá ser medida por um resultado concreto: quantas mortes e perdas o Brasil conseguirá evitar com a informação que já tem.



