Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Análise: Queimadas recuam, mas com El Niño risco continua elevado

MapBiomas registra forte recuo das queimadas em 2025, mas o Cerrado concentra as perdas e o El Niño amplia a ameaça de seca e incêndios no Norte

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O Brasil teve 12,7 milhões de hectares atingidos pelo fogo em 2025. Segundo o Relatório Anual do Fogo, do MapBiomas, o resultado ficou 31% abaixo da média histórica e correspondeu a menos da metade da extensão registrada no ano anterior. É uma melhora expressiva, mas não uma autorização para baixar a guarda.

A Amazônia puxou o recuo. Após alcançar 15,8 milhões de hectares queimados em 2024, o maior resultado da série iniciada em 1985, o bioma caiu para 3,1 milhões em 2025, seu menor patamar em 41 anos. O Pantanal também registrou um mínimo histórico, com 121 mil hectares.

A mudança demonstra que a devastação de 2024 não era inevitável. Também expõe a volatilidade do risco. Em apenas doze meses, a Amazônia passou do maior para o menor resultado da série. Mas o número nacional esconde uma concentração preocupante. O Cerrado teve 8,7 milhões de hectares queimados, quase 69% do total brasileiro. Mesmo abaixo de sua média histórica, permaneceu como o bioma mais atingido.

O fogo não produz os mesmos efeitos em todos os ecossistemas. No Cerrado, integra processos naturais e pode ser utilizado, sob controle técnico, para reduzir o acúmulo de vegetação seca. Quando se torna muito frequente, intenso ou ocorre em época inadequada, porém, supera a capacidade de recuperação do bioma.

Na Amazônia, que não é adaptada a incêndios recorrentes, o efeito tende a ser mais destrutivo. O fogo mata árvores, abre a floresta, reduz a umidade e deixa mais material inflamável. Cada ocorrência pode, assim, preparar o terreno para a seguinte.

Esse risco aumenta em 2026. O fortalecimento do El Niño tende a favorecer chuvas abaixo da média e temperaturas mais elevadas em partes da Região Norte. A combinação intensifica a perda de umidade do solo, resseca a vegetação e amplia a possibilidade de propagação rápida das chamas durante a estação seca.

O El Niño não é a única causa de uma eventual seca severa. O comportamento do Atlântico, o aquecimento global, o desmatamento e as condições locais também influenciam o regime de chuvas. Ainda assim, o fenômeno inclina o cenário para menor disponibilidade de água e maior risco de incêndios.

A experiência recente recomenda prudência. Secas intensas na Amazônia reduzem os níveis dos rios, prejudicam o transporte, isolam comunidades, encarecem o abastecimento e afetam a produção. Quando associadas ao uso irregular do fogo, podem reverter rapidamente a melhora registrada em 2025.

A reincidência é o dado mais revelador do relatório. Desde 1985, 64% das áreas queimadas no país foram atingidas mais de uma vez. Em 52% das áreas reincidentes, o fogo retornou em até quatro anos. Na Amazônia, 31,6% voltaram a queimar em até dois.

Intervalos tão curtos limitam a regeneração e transformam o incêndio em processo contínuo de degradação. Os prejuízos alcançam propriedades rurais, lavouras, pastagens, estradas, linhas de transmissão, logística e saúde pública. Prevenir, portanto, não é apenas uma exigência ambiental. É uma decisão econômica.

A Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo oferece a base legal para essa mudança. Sua implementação exige brigadas permanentes, alertas precoces, planejamento anterior à estação seca, queimadas prescritas quando tecnicamente indicadas e coordenação entre governos, produtores rurais e comunidades tradicionais.

O resultado de 2025 deve ser tratado como referência, não como álibi. Com o El Niño elevando o risco no Norte, o Brasil precisa transformar prevenção, manejo e resposta rápida em capacidades permanentes. Esperar que a seca se agrave e que o fogo se espalhe para então agir seria repetir um erro conhecido — e cada vez mais caro.