Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

COP30

Com Trump, EUA cedem liderança à China na energia limpa

Com menor participação global e corte de incentivos, EUA perdem espaço na transição energética e nas exportações de tecnologias renováveis

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A ausência dos EUA na COP30 é mais que um gesto político, sinaliza o afastamento de uma das maiores economias do mundo dos compromissos com a transição energética. Isso foi reforçado recentemente com o cancelamento de incentivos governamentais às energias renováveis. Com isso, o país pode ficar ainda mais para trás na corrida por inovação, investimentos e influência internacional no setor de energia renovável.

Dados recentes do Our World in Data (projeto do Global Change Data Lab) reforçam esse alerta. Em 2024, a China foi responsável por 34% de toda a geração mundial de energia renovável, enquanto os EUA contribuíram com somente 11%, conforme gráfico abaixo.

Na produção combinada de energia solar e eólica, o avanço chinês é ainda mais impressionante: 1.825 TWh em 2024 contra 756 TWh gerados pelos norte-americanos no mesmo ano — menos da metade. A evolução pode ser vista no gráfico a seguir.

Os dois gráficos evidenciam que a participação de energias renováveis no mix de geração elétrica nos EUA tem evoluído distintamente da observada na China. Neste país, a geração renovável segue uma curva de crescimento mais alinhada à média mundial e já ultrapassa um terço da geração elétrica renovável global. Na geração eólica, o crescimento dessas fontes na China é bem mais expressivo do que nos EUA.

Esse desequilíbrio não se limita à geração. A China ocupa posição de liderança nas exportações de equipamentos fotovoltaicos, enquanto a Alemanha e a Dinamarca se destacam nas tecnologias eólicas. Nos dois segmentos, a participação americana é fraca em relação às exportações.

Consumo crescente

Segundo relatório da Agência Internacional de Energia (AIE), a demanda global por eletricidade deve crescer 3,3% em 2025 e 3,7% em 2026. Isso representa mais que o dobro do ritmo de crescimento da demanda total de energia no período. Apesar de o valor ficar abaixo dos 4,4% registrados em 2024, esses percentuais seguem acima da média de 2,6% entre 2015 e 2023. O aumento é impulsionado pelo uso crescente de eletricidade em fábricas, edifícios, eletrodomésticos, veículos elétricos, data centers e outras aplicações.

Segundo a AIE, as energias renováveis devem superar o carvão como principal fonte de geração elétrica no mundo já em 2025, ou até 2026, a depender das condições climáticas e das variações nos preços dos combustíveis.

Entretanto, o enfraquecimento da presença americana em eventos como a COP30 tende a acentuar o quadro de crescimento reduzido das fontes renováveis no mix energético dos EUA. Sem participar das negociações internacionais, os Estados Unidos perdem espaço na definição de regras técnicas, normas ambientais e padrões de sustentabilidade que podem influenciar o comércio global por décadas. Ao mesmo tempo, deixam de impulsionar sua indústria nacional com políticas públicas que favoreçam pesquisa, produção e exportação de tecnologias limpas.

Resistência

Há, no entanto, sinais de resistência. Governadores de estados americanos preocupados com as questões climáticas devem comparecer à COP30 com delegações próprias, repetindo movimento registrado anteriormente durante o primeiro mandato de Trump. Essas lideranças estaduais seguem comprometidas com metas de descarbonização e pretendem manter acordos internacionais mesmo sem respaldo federal.

Mas a atuação subnacional, embora relevante, não compensa a ausência do governo central. A transição energética exige coordenação, escala e financiamento. Enquanto os EUA desaceleram, a China avança em todas as frentes: domina a cadeia de suprimentos, expande sua presença nos mercados externos e lidera a geração interna.

Ao deixar de investir em energias renováveis e de participar das principais instâncias globais de negociação climática, os Estados Unidos podem comprometer não apenas seus compromissos ambientais, mas também seu papel estratégico na economia do futuro.