Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

COP30: compromissos de redução já cobrem metade das emissões globais

A demora na entrega das metas gerava dúvidas sobre o comprometimento de muitos países, mas anúncios feitos na Climate Week reforçaram o otimismo para a COP30 em Belém

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Conforme estabelecido no Acordo de Paris, em 2015, a cada cinco anos os países signatários devem apresentar suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs). Elas representam os compromissos de cada país com a redução de emissões de gases de efeito estufa, planos de adaptação e medidas de implementação para limitar o aquecimento a 1,5 °C.

A expectativa era de que os países apresentassem suas NDCs atualizadas no início deste ano, mas isso não ocorreu. Somente com a Climate Week, concluída na semana passada em Nova Iorque, é que houve um progresso mais significativo, seja com a entrega de NDCs ou no anúncio de novas metas, segundo a plataforma Carbon Brief.

Portanto, os países que anunciaram ou apresentaram seus compromissos climáticos para 2035 agora representam metade das emissões globais, de acordo com a análise dessa mesma plataforma.

As metas da China geram dúvidas

Dentre as metas climáticas anunciadas por Xi Jinping para 2035 está a promessa de cortar 7% a 10% das emissões até 2035 em relação ao “nível de pico”. Aqui cabe uma ressalva: entende-se que o “nível de pico” será o maior volume anual de emissões registrado entre agora e 2030.

Como não há definição sobre o ano e o patamar desse pico, se ele se der antes e em um nível mais baixo, a redução até 2035 parecerá mais ambiciosa; mas, se ocorrer mais tarde e em um valor elevado, o corte de 7–10% terá efeito bem menor.

Outra promessa é a de elevar a participação de fontes não fósseis para 30% da matriz energética e expandir a capacidade solar e eólica para 3.600 GW. No entanto, críticos destacam que essas metas refletem um cenário já em andamento, pois a China ultrapassou antecipadamente a marca de 1.200 GW de geração eólica, antes prevista para 2030. Isso sugere que o novo compromisso não projeta um esforço adicional significativo, mas apenas consolida tendências existentes.

Também permanece a lacuna em relação a gases como metano e óxido nitroso, que representam parte relevante das emissões chinesas e são importantes na geração do efeito estufa. Apesar da promessa de incluí-los, não foram divulgados números concretos ou planos robustos. Assim, embora a mudança para metas absolutas seja positiva do ponto de vista diplomático, a continuidade da dependência do carvão e a falta de ambição real colocam em dúvida se o maior emissor mundial está pronto para alinhar-se à trajetória de 1,5 °C.

O impasse europeu

A União Europeia ainda não apresentou suas NDCs revisadas porque persiste a falta de consenso entre os Estados-membros quanto ao grau de ambição e à velocidade das reduções de emissões. Enquanto países fortemente dependentes de setores intensivos em energia temem os impactos econômicos de metas mais rígidas, outros defendem avanços mais ambiciosos. A situação se complicou ainda mais porque a atualização para 2035 é tida como uma fase intermediária para a meta de 2040, que permanece em aberto.

Somam-se a isso os entraves institucionais da UE, que tornam o processo de aprovação mais demorado, já que depende de negociações no Conselho da União Europeia e de trâmites legislativos. No encontro mais recente do Conselho do Meio Ambiente, não houve consenso para formalizar novas metas, resultando apenas em uma declaração sem efeito vinculante.

Estados Unidos

No fim de 2024, os Estados Unidos divulgaram uma versão atualizada de suas NDCs. A revisão ampliou o nível de ambição, com a definição de reduzir, até 2035, as emissões líquidas entre 61% e 66% em relação a 2005.

Também foi divulgado o compromisso de alcançar a neutralidade de carbono em 2050. Com a resolução do governo Trump de sair do Acordo de Paris, certamente essas metas federais não serão mais consideradas. Entretanto, estados como Califórnia e empresas seguem investindo em descarbonização, mostrandoa complexidade do caso americano.

COP30

Os anúncios da Climate Week mostram disposição política, mas sem cortes reais e imediatos, as metas podem virar apenas declarações diplomáticas. A COP30 será, portanto, o teste definitivo para transformar promessas em ação.

Se os países não apresentarem mecanismos claros de implementação, o risco é que o Acordo de Paris se fragilize ainda mais e o objetivo de limitar o aquecimento a 1,5 °C se torne inalcançável. A Climate Week reacendeu o otimismo, mas com ressalvas.