Pedro Côrtes
Blog
Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Primeiro mês da política “drill, baby, dril”. O que mudou?

Veja como ficou a indústria de petróleo e gás no primeiro mês da política de incentivo aos combustíveis fósseis de Donald Trump

Compartilhar matéria

Há pouco mais de um mês, Donald Trump manifestou seu apoio à indústria de combustíveis fósseis, especialmente petróleo e gás, retomando o slogan “drill, baby, drill” lançado durante a campanha presidencial de 2008 nos EUA.

Ao declarar “estado de emergência energética”, Trump sinalizou com a necessidade de ampliar a produção de combustíveis fósseis para uso em termoelétricas em substituição à geração a partir de fontes renováveis. Com isso, esperava-se uma grande movimentação entre as petrolíferas, ampliando fortemente os investimentos para aumento da produção e redução significativa de preços. Não foi, necessariamente, o que aconteceu.

Petróleo

No início do mandato de Trump, em 20 de janeiro, o preço do petróleo do tipo Brent estava em USD 79 o barril e manteve uma trajetória de queda até 7 de fevereiro, quando chegou a USD 74. Houve uma recomposição de preços nos dias subsequentes, mas nada significativo. Durante o primeiro mês de Donald Trump, o preço do petróleo do tipo Brent oscilou entre USD 79.9 e USD 74,1, em um quadro de normalidade.

Embora os preços do petróleo não tenham sido imediatamente afetados, há reações importantes no meio corporativo e em alguns países. Segundo a Forbes, há uma tendência de as empresas de energia focarem na gestão do capital e em investimentos estratégicos, em vez de uma expansão acelerada.

Ainda segundo a Forbes, Liam Mallon, presidente da divisão de prospecção, exploração e produção da ExxonMobil, reforçou essa percepção ao afirmar que uma alteração substancial na produção é pouco provável. A maioria das petrolíferas está concentrada na sustentabilidade econômica de suas operações. Esta seria uma tendência do setor, que prioriza a sustentabilidade financeira em vez de aumentos imediatos na produção. Para isso, a estabilidade de preços internacionais é de fundamental importância.

Há um receio de que uma maior produção reduza os preços e possa tornar algumas operações inviáveis financeiramente. Por isso, o papel da Opep tem que ser considerado como uma moderadora das cotações internacionais. Por outro lado, uma maior produção nos EUA não significa que ela será acompanhada de preços que remunerem adequadamente o capital investido em uma expansão da produção.

Além disso, com a transição energética em curso em diversos países, há uma perspectiva de redução de consumo a longo prazo. Esse é um cenário onde os produtores acabam por priorizar o fluxo de caixa e o retorno aos acionistas ao invés de realizar grandes investimentos em perfuração. A descarbonização em países como a China e do Sudeste Asiático é questão estratégica, ao reduzir a dependência de combustíveis fósseis que eles precisam importar.

Gás

Ao contrário da cotação do petróleo do tipo Brent, que se manteve razoavelmente estável, o preço do gás sofreu elevação em fevereiro, impulsionado pelas ondas de frio nos EUA e na Europa, gerando maior demanda. Não houve, até o momento, uma conjuntura não climática que justificasse esse aumento.

Entretanto, novos arranjos estão previstos. Com a intenção de Donald Trump sobretaxar importações de países com os quais os EUA têm déficit comercial, a Índia concordou em expandir a compra de petróleo e gás americanos. A Coreia do Sul e o Japão também sinalizaram interesse em ampliar compras de gás natural liquefeito dos EUA para reduzir o superavit comercial e diversificar o fornecimento.

Um mês pode parecer pouco, mas os arranjos comerciais já começam a acontecer. Esse é o capítulo inicial da série “drill, baby, dril”. Novos episódios são esperados com certa ansiedade.