Seca recua, mas risco de fogo volta a subir em 2026
Alívio captado pela ANA reduz pressão imediata, mas transição para período seco recoloca Norte e Centro-Oeste no centro do risco climático
O Brasil entrou em 2026 com um sinal de alívio climático relevante, mas enganoso do ponto de vista estrutural. A atualização mais recente do Monitor de Secas mostra que a área afetada no país recuou de 63% para 54% do território entre janeiro e fevereiro, refletindo a recuperação parcial de umidade típica do período chuvoso. No curto prazo, o movimento reduz a pressão sobre o risco de queimadas. No horizonte do ano, no entanto, a leitura é menos positiva.
O dado central é que a melhora registrada pela ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico) tem caráter sazonal. Trata-se de uma recomposição transitória das condições hidrológicas, e não de uma reversão do padrão de vulnerabilidade que marcou os últimos ciclos secos no país.
A leitura regional reforça esse diagnóstico. O Norte apresentou a condição mais branda entre as regiões, com 29% da área sob seca em fevereiro, mas com deterioração simultânea em estados estratégicos como Amazonas e Roraima. O quadro sugere uma recuperação desigual, com manutenção de bolsões de estresse hídrico justamente em áreas mais sensíveis à propagação do fogo.
No Centro-Oeste, a melhora foi mais expressiva, com recuo consistente da seca em Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Em Mato Grosso, a área afetada caiu de 86% para 57%, enquanto em Mato Grosso do Sul o indicador recuou de 60% para 35%, atingindo o menor nível desde meados de 2025. Ainda assim, a dinâmica regional segue ancorada em uma sazonalidade rígida: a perda acelerada de umidade a partir do segundo trimestre tende a reverter rapidamente parte desse ganho.
Esse ponto é crítico para a leitura de risco. A partir de maio, a combinação entre redução das chuvas, aumento da temperatura média e intensificação da evapotranspiração eleva de forma não linear a inflamabilidade da vegetação. Em regiões como o sul da Amazônia e o Pantanal, onde o uso do fogo é recorrente e a cobertura vegetal já apresenta algum grau de degradação, o sistema climático passa a operar próximo a um limiar de ignição.
O histórico recente reforça a sensibilidade desse equilíbrio. Entre 2023 e 2024, episódios de seca severa na Amazônia reduziram drasticamente a umidade do solo e ampliaram a extensão e a duração das queimadas, com impacto direto sobre cadeias logísticas fluviais, produtividade agrícola e qualidade do ar em centros urbanos. Dados do INPE mostram que os picos de focos de calor nesses períodos coincidiram com janelas de déficit hídrico prolongado e temperaturas persistentemente acima da média.
Para o agronegócio, o vetor de risco é claro. A intensificação da estação seca no Centro-Oeste coincide com fases críticas do milho safrinha e com a disponibilidade de pastagens, elevando a exposição a perdas produtivas e ao aumento do custo de seguro rural. No Norte, eventos extremos associados à seca têm potencial de comprometer a navegabilidade de hidrovias estratégicas, pressionando custos logísticos e fluxos de exportação.
Diante desse quadro, a melhor síntese para o ano é de assimetria temporal. No curto prazo, o risco climático de queimadas se mantém moderado, refletindo a melhora recente captada pela ANA. Ao longo do segundo semestre, porém, a tendência é de elevação para moderado a alto, à medida que o regime seco se consolida e a umidade disponível no sistema cai de forma acelerada.
No Norte, esse movimento tende a se concentrar no chamado arco do desmatamento, onde a combinação entre seca residual e pressão antrópica amplifica o risco de fogo. No Centro-Oeste, o foco permanece no Pantanal e em áreas de Mato Grosso, regiões historicamente mais expostas a eventos extremos durante a estação seca.
A leitura final é inequívoca: o Brasil experimenta em 2026 um alívio conjuntural, mas não uma mudança estrutural no risco climático. A melhora observada no início do ano reduz a pressão imediata, mas não altera a trajetória de fundo. À medida que o calendário avança, o sistema retorna ao seu padrão dominante — e o risco de queimadas volta a ganhar tração.
Para mercado, reguladores e formuladores de política, a implicação é direta: o risco foi postergado, não dissipado.



