Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Super El Niño já está configurado no Pacífico

O aquecimento do oceano já chegou ao nível dos El Niños mais fortes e amplia o alerta para o Brasil

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Pela régua utilizada durante décadas, denominada ONI (Índice Oceânico Niño), o Pacífico equatorial já entrou no território de um El Niño muito forte. Na semana centrada em 8 de julho, a principal área de acompanhamento do fenômeno apresentou aquecimento de +2,0°C. É o patamar numérico associado ao que popularmente se chama de Super El Niño.

Essa área é conhecida como Niño 3.4. Trata-se de uma extensa faixa no centro do Pacífico equatorial, no caminho entre a Oceania e a América do Sul. Os cientistas a observam como o principal termômetro do El Niño e mostra uma alteração dos ventos e a distribuição das chuvas em várias partes do mundo.

A leitura de +2,0°C não significa que todo o episódio já tenha recebido oficialmente a classificação de muito forte. A confirmação depende da média registrada ao longo de três meses, e não do resultado de uma única semana. O dado evidencia, porém, que o oceano já alcançou o nível térmico dos eventos mais intensos pela escala anterior.

A diferença entre a régua antiga e a atual (Índice Oceânico Niño Relativo ou RONI) pode ser explicada sem transformar o clima numa equação. O método anterior perguntava quanto a região Niño 3.4 estava mais quente do que sua própria média histórica, calculada para um período de 30 anos.

A nova metodologia reconhece que os oceanos tropicais, em conjunto, também estão mais quentes. A nova régua desconta parte desse aquecimento mais amplo e procura identificar quanto do calor observado no Pacífico pertence especificamente ao El Niño. O resultado é então calibrado para permitir a comparação com os episódios do passado.

Por isso, na medição semanal relativa, o valor ficou em +1,3°C. Não existem duas temperaturas diferentes no Pacífico. Existem duas maneiras de interpretar a mesma observação: a antiga mostra o aquecimento total em relação à média histórica; a atual procura separar o El Niño do aquecimento geral dos mares tropicais.

A mudança aperfeiçoa as comparações entre eventos de décadas diferentes, mas não torna o oceano menos quente. Também não elimina os sinais que já aparecem no ar. Os ventos sobre o Pacífico mudaram e as regiões onde se formam as grandes áreas de nuvens e chuva começaram a se deslocar.

Em termos simples, o oceano não está aquecendo sozinho: a atmosfera já começou a responder. É essa interação entre o mar e o ar que permite ao El Niño reorganizar o clima e produzir efeitos muito além do Pacífico.

As projeções reforçam o alerta. A NOAA calcula em 81% a possibilidade de o El Niño alcançar a categoria muito forte também pela nova escala entre outubro e dezembro de 2026. Um fenômeno mais intenso não garante que todos os efeitos serão extremos em todos os lugares, mas aumenta o risco.

No Brasil, o documento “Painel El Niño 2026-2027 — Boletim Mensal nº 1 — Junho de 2026”, divulgado em 29 de junho, reúne análises do INMET, INPE, ANA, Cemaden, Serviço Geológico do Brasil e Defesa Civil Nacional.

O boletim prevê, para o trimestre de julho a setembro, maior possibilidade de chuvas acima da média em áreas do Sul e de chuva abaixo da média em boa parte do centro-norte do país. Também aponta temperaturas elevadas no segundo semestre, capazes de ampliar o risco de ondas de calor e incêndios florestais.

“Super El Niño” não é a denominação utilizada na classificação oficial. O termo científico é El Niño muito forte. A expressão popular, porém, traduz um fato que já não pode ser tratado como remoto: pela régua anterior, o Pacífico entrou nesta semana no nível dos maiores eventos.

A ciência atualizou a escala para enxergar melhor o fenômeno. Para o Brasil, a mensagem prática continua simples: o tempo de prevenção já começou.