Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Trump contra o desmatamento ilegal no Brasil

Exportações brasileiras impulsionadas por madeira extraída ilegalmente pressionam o setor florestal norte-americano e colocam o Brasil na mira de sanções comerciais

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Em um mundo em que parecem prevalecer as distopias, pressões ambientais podem surgir de onde menos se espera. Há muitos anos se conjecturava que elas poderiam vir – e realmente vinham – da Europa. Embora o governo dos EUA tenha oscilado em suas preocupações ambientais, conforme a visão de quem ocupava a presidência, na verdade, essa apreensão com o desmatamento ilegal não é nova por parte dos americanos. Entretanto, produtores de madeira dos EUA manifestavam preocupações formais por meio de associações da indústria, ONGs e apoio à legislação. O governo americano passava ao largo dessas preocupações.

A crescente pressão internacional sobre o Brasil por conta do desmatamento ilegal na Amazônia ganhou novo capítulo com a abertura, pelos Estados Unidos, de uma investigação formal contra práticas comerciais brasileiras. Entre as acusações que embasam a medida está uma preocupação estratégica: a madeira extraída ilegalmente no Brasil estaria afetando diretamente a competitividade dos produtores norte-americanos.

O setor florestal dos Estados Unidos opera sob regras de manejo que exigem licenciamento e certificações que elevam o custo de produção. Em contraste, a madeira brasileira extraída ilegalmente chega ao mercado com preços artificialmente baixos, justamente por desconsiderar externalidades ambientais. Essa falta de paridade de condições não somente fere os princípios de concorrência justa, mas também compromete os esforços globais de combate à mudança climática. As condições desiguais de competitividade sensibilizam muito mais o governo americano do que propriamente as questões climáticas, que historicamente receberam menos atenção.

Em um cenário distópico, até o desmatamento ilegal no Brasil poderia preocupar o atual governo americano — o que, até então, parecia improvável. Entretanto, parodiando Luiz Fernando Veríssimo, o destino é um grande gozador, pois foi justamente o desmatamento ilegal um dos argumentos utilizados pelo governo Trump para a imposição de uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros.

O argumento é que o desmatamento ilegal, ao violar normas ambientais e alimentar redes de crime organizado, gera externalidades negativas para os Estados Unidos. Segundo o Representante Comercial dos EUA (USTR), essa prática cria uma vantagem indevida aos exportadores brasileiros de madeira, que concorrem com empresas legalmente operantes nos EUA.

Conforme mencionado, não é uma acusação nova. Há anos, investigações internacionais apontavam o Brasil como origem de madeira ilegal exportada com documentação fraudulenta. A diferença, agora, está na gravidade da reação, por haver uma vinculação explícita entre desmatamento e tarifas comerciais. Isso inaugura precedente na diplomacia econômica internacional.

A medida também lança luz sobre um problema crônico no Brasil: a fragilidade dos sistemas de controle florestal. Fiscalizações insuficientes, corrupção, falsificação de guias florestais e uma vasta área de difícil acesso formam o pano de fundo para a exploração predatória. Para os produtores norte-americanos, isso se traduz em perda de contratos, recuo nas exportações e fechamento de serrarias. A madeira amazônica, com sua alta densidade e resistência, compete diretamente com madeiras nativas dos EUA utilizadas na construção civil e em móveis de alto padrão.

Não se pode desconsiderar que consumidores globais vêm pressionando cada vez mais por cadeias de fornecimento sustentáveis. Esse precedente americano poderá levar outros países a considerarem a imposição de barreiras – tarifárias ou não – aos produtos agrícolas brasileiros, sempre alegando questões ambientais. Com a COP30 se aproximando, esse é um cenário que preocupa.

Do ponto de vista brasileiro, a resposta oficial ainda é tímida. Apesar de avanços no uso de satélites para monitoramento, o volume de autuações e punições segue muito abaixo do necessário. Em nota recente, o governo federal afirmou estar comprometido com o combate ao desmatamento, mas não apresentou contramedidas específicas frente à ameaça tarifária dos EUA.

Essa tensão revela que a questão ambiental é um dos novos componentes na disputa comercial entre os EUA e o Brasil. Quando um país desmata ilegalmente e transforma essa destruição em lucro para alguns, todos perdem, inclusive seus próprios produtores, que veem seu setor manchado por práticas irregulares. No cenário internacional, a madeira e outros produtos naturais devem vir de fontes com manejo sustentável. Caso contrário, as consequências não virão apenas da natureza, mas também da política comercial.