Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Trump e as terras raras da Ucrânia

Por que o presidente dos Estados Unidos está tão interessado nas reservas do país?

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As terras raras, um grupo de 17 elementos químicos essenciais em diversas áreas, não são escassas como o nome pode indicar, mas sua extração é complexa devido às baixas concentrações.

A China domina a produção e o processamento mundial e seu uso torna esses minerais estratégicos. Esse cenário explica o interesse de Trump em incluir a exploração das reservas da Ucrânia em uma possível negociação de paz.

As terras raras são utilizadas na produção de ímãs permanentes para motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, dispositivos eletrônicos e baterias recarregáveis, telas de smartphones e LEDs.

São empregados também em conversores catalíticos para reduzir a emissão de poluentes, sistemas de iluminação, radares e lasers. Também são utilizados em pesquisas sobre o desenvolvimento de supercondutores e nanotecnologia.

Antes era o petróleo, agora são as terras raras

A geopolítica tem seus meandros, mas às vezes os motivos emergem com nitidez. Foi o caso da Guerra do Golfo, basicamente motivada pela exploração e comercialização do petróleo.

O Iraque afirmou que o Kuwait estava extraindo petróleo indevidamente em áreas próximas à fronteira e o acusou de manipular os preços para mantê-los baixos, afetando negativamente sua economia, combalida pela guerra Irã-Iraque (1980–1988). O Iraque invadiu o Kuwait em agosto de 1990, mas uma coalizão liderada pelos Estados Unidos e autorizada pelas Nações Unidas interveio e o conflito terminou em fevereiro de 1991.

Há vários outros exemplos de crises diplomáticas e conflitos que tiveram como pano de fundo o controle da produção de petróleo em grandes áreas produtoras. Foi o caso, por exemplo, das duas crises do petróleo na década de 1970.

Na primeira delas, entre 1973–1974, a OPEP promoveu um embargo petrolífero a países que apoiavam Israel na Guerra do Yom Kippur, elevando drasticamente os preços internacionais.

Entre 1979 e 1980, a Revolução Iraniana derrubou o xá Reza Pahlavi e levou ao poder o aiatolá Khomeini. A instabilidade política reduziu a produção do Irã, um dos maiores fornecedores internacionais de petróleo, elevando o preço do barril.

Agora, o suprimento de petróleo não é mais um problema. Vários países, como os EUA e Argentina, investiram na exploração via fraturamento hidráulico (ou fracking), em que pesem os comprovados danos ambientais e a contaminação de pessoas que vivem nas áreas de extração.

A demanda agora é pelos minerais que concentram elementos químicos para indústrias estratégicas, como chips, baterias, displays e memórias. Como a China, estrategicamente, concentra boa parte da produção e processamento mundial de terras raras, os EUA estão buscando ampliar sua participação na cadeia de suprimento desses elementos químicos.

O cenário mundial mudou, mas a essência da disputa permanece a mesma: quem controla os recursos estratégicos, controla o futuro. Não é de se estranhar que um acordo de paz entre Ucrânia e Rússia venha a envolver, ainda que não diretamente, o controle da extração e processamento de bens minerais estratégicos.