Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Fala de senador sobre ministra Marina Silva pode repercutir na COP30

Senador Plínio Valério (PSDB-AM) afirmou sentir vontade de “enforcar” a ministra ao relembrar sua participação na CPI das ONGs

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O senador Plínio Valério (PSDB-AM) afirmou sentir vontade de “enforcar” a ministra ao relembrar sua participação na CPI das ONGs durante evento da Fecomércio no Amazonas. O senador disse que foi uma brincadeira.

Sobre sua manifestação, o senador afirmou: “Eu não excedi, eu brinquei, talvez, fora da hora. Mas não me excedi”. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), classificou a fala como “muito infeliz”.

Além de atingir a pessoa de Marina Silva e, por consequência, o cargo que ocupa, a fala do senador Plínio Valério se referiu a uma das personalidades de maior prestígio internacional nas áreas ambiental e climática. Marina é reconhecida globalmente por sua trajetória de décadas na defesa da Amazônia, por sua atuação em fóruns multilaterais e por representar o Brasil em uma das agendas mais estratégicas do século: a crise climática.

Trata-se, portanto, de uma figura pública cuja imagem ultrapassa as fronteiras nacionais e cuja presença no governo tem sido vista como um ativo importante para a diplomacia ambiental do país.

É possível que o senador não tenha ponderado, no momento de sua declaração, que se referia à ministra com maior projeção internacional entre todos os integrantes do governo Lula — com exceção, evidentemente, do próprio presidente da República. Ao referir-se a Marina Silva de forma desrespeitosa, ainda que sob a alegação de uma “brincadeira”, sua fala reverbera não apenas no ambiente político interno, mas também no cenário externo, em um momento em que o Brasil busca fortalecer sua imagem como liderança global na agenda climática.

A declaração soa, portanto, inadequada, especialmente diante dos desafios que o país enfrenta para garantir o êxito da COP30, que será sediada em Belém. A realização da conferência exige articulação institucional, cooperação federativa e coesão no discurso político. Declarações como essa em nada contribuem para consolidar a imagem de um país comprometido com o diálogo e com soluções coletivas. Ao contrário, podem comprometer esforços de construção de consenso — algo fundamental em cúpulas internacionais que exigem diplomacia, credibilidade e respeito mútuo em todas as instâncias.

A percepção que se forma é a de um progressivo abandono da chamada “liturgia do cargo”, expressão recorrente do ex-presidente José Sarney para definir a conduta institucional que se espera de quem ocupa posições de destaque no serviço público. Essa ideia remete à necessidade de atuar com responsabilidade, sobriedade e respeito, tanto nas manifestações públicas quanto nas decisões relacionadas à função exercida.

Com a facilidade e velocidade com que pronunciamentos, declarações e discursos são divulgados, a “liturgia do cargo” deve ser cada vez mais observada por aqueles que ocupam posições importantes no serviço público.

É fácil perceber que uma declaração desse tipo, mesmo que em tom de “brincadeira”, em nada ajuda o país em um momento de organização da edição mais importante da Convenção do Clima.