Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

COP30: o que a fala de Merz indica sobre os países ricos?

A declaração de Friedrich Merz revela o que, nas entrelinhas dos comunicados, tem ficado subentendido. Pode não haver real intenção dos países ricos em resolver a crise climática

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Há uma tendência de os países ricos renegarem o papel que eles desempenharam na crise climática. Desde que o processo de industrialização progressiva teve início na Inglaterra do século XVIII, o consumo de combustíveis fósseis se acentuou. A chamada Revolução Industrial se espalhou posteriormente por outros países europeus e também nos EUA.

O termo Revolução Industrial, cabe notar, é considerado controverso, pois não houve uma ruptura abrupta de um sistema econômico, mas uma transformação gradual com a utilização de novas tecnologias e fontes de energia notadamente não renováveis.

As emissões geradas pela industrialização se acumularam na atmosfera, ampliando o efeito estufa que aquece o planeta. O dióxido de carbono (CO₂) é o principal gás envolvido, devido às grandes quantidades liberadas pela queima de combustíveis fósseis. Seu excedente pode levar mais de um século para ser removido da atmosfera. Portanto, a industrialização — e a riqueza — de diversos países deu-se com as emissões de CO2 que provocam as mudanças climáticas.

Historicamente, os principais emissores são os Estados Unidos, China, Rússia, Alemanha, Reino Unido, Japão, Índia, Canadá e França, com dados agrupados do Climate Change Economics (Universidade de Potsdam, Alemanha), do Emissions Database for Global Atmospheric Research (União Europeia), do Global Carbon Project (que congrega várias instituições), do Carbon Brief (Reino Unido).

O atual governo americano não acredita nas mudanças climáticas, tema pesquisado por cientistas daquele país há mais de 50 anos.

Rússia, como um dos maiores produtores de petróleo do mundo, evita maior envolvimento com o tema. China e Índia mantêm distanciamento e discrição estratégica na COP30.

Ao considerarmos a União Europeia na totalidade, ela ascenderia como um dos principais emissores históricos de gases de efeito estufa. É correto dizer que boa parte da riqueza daquele bloco deu-se às custas de mudanças climáticas. Portanto, há um passivo histórico a ser compensado. Mas isso não parece sensibilizar os países ricos.

A declaração de Friedrich Merz

O posicionamento do chanceler da Alemanha sobre Belém gerou reação imediata e negativa. Suas palavras foram vistas como preconceituosas, mal-informadas e incompatíveis com a responsabilidade esperada de um líder de grande potência econômica.

O comentário prejudicou não apenas o ambiente político da conferência, mas também a imagem internacional da própria Alemanha, que historicamente buscou se posicionar como referência no debate climático.

Ao menosprezar a escolha de Belém, ele contraria justamente o objetivo do Brasil: trazer os decisores climáticos para dentro da realidade amazônica, mostrando tanto seus problemas quanto sua relevância global. A atitude demonstra como preconceitos pessoais continuam influenciando decisões estratégicas, mesmo em temas que exigem visão ampla e cooperação internacional.

O episódio também revela uma mudança importante no posicionamento alemão. Antes vista como líder ambiental, a Alemanha agora indica que não adotará políticas climáticas que possam gerar custos econômicos, reforçando a falsa oposição entre crescimento e ação climática.

Essa visão limita uma ambição global pela redução de emissões e impede o avanço de modelos que conciliem desenvolvimento com visão ambiental — algo que países emergentes, como o Brasil, têm insistido em demonstrar ser possível.

Por fim, a declaração retoma um padrão de paternalismo histórico de países ricos, que muitas vezes se colocam como superiores e tentam ditar o ritmo das negociações climáticas. Essa postura ignora o papel central dos povos da floresta e os conhecimentos produzidos na Amazônia, além de conduzir a decisões equivocadas e desalinhadas com a realidade local.

Embora Belém enfrente desigualdades reais, a fala do chanceler não contribui para enfrentá-las; ao contrário, exemplifica como visões distorcidas podem prejudicar a cooperação e comprometer o avanço das negociações na COP.

A fala de Merz não é um deslize isolado, mas um alerta incômodo sobre o estado real da diplomacia climática: ainda há líderes que tratam a Amazônia como periferia política e o combate às mudanças climáticas como concessão econômica.

Enquanto essa visão persistir entre países historicamente responsáveis pelas mudanças climáticas, o pretendido multilateralismo continuará desequilibrado e a COP seguirá refém de velhas hierarquias que impedem o avanço de soluções urgentes.