Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Cantareira pode voltar ao nível de alerta

Relatório do Cemaden indica que, mesmo após recuperação recente, sistema entra no período de estiagem com déficit e risco de nova queda nos reservatórios.

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A melhora recente do Sistema Cantareira trouxe alívio momentâneo, mas está longe de representar uma reversão do problema hídrico em São Paulo.

Os reservatórios encerraram março com cerca de 44% da capacidade, após recuperação impulsionada pelas chuvas do fim do verão. Ainda assim, o nível permanece abaixo do registrado no mesmo período de 2025, quando o sistema operava próximo de 58%, indicando que parte relevante da água perdida ao longo do último ano ainda não foi recomposta. 

O ponto central não está apenas no nível atual, mas no caminho percorrido até aqui. Entre o fim de 2025 e o início de 2026, o Cantareira atingiu seus patamares mais baixos desde a crise hídrica de 2014–2016. Esse recuo refletiu um período prolongado de chuvas abaixo do esperado, combinado com o uso da água armazenada. As precipitações mais recentes ajudaram a estabilizar o sistema, mas não foram suficientes para reequilibrar o estoque. 

O comportamento dos rios que alimentam os reservatórios reforça esse cenário. Mesmo quando as chuvas se aproximam da normalidade, a resposta do sistema é lenta nesta época do ano e a reposição de água continua abaixo do padrão histórico. Isso indica que o problema não é apenas pontual, mas resultado de um ciclo hidrológico mais fragilizado ao longo dos últimos meses. 

As projeções do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN) para os próximos meses acendem um sinal de cautela. Se o regime de chuvas seguir dentro da média, o sistema deve atravessar o início do inverno sem grandes oscilações. No entanto, com o avanço da estação seca, a tendência é de queda gradual, com os níveis podendo recuar para algo próximo de 35% até setembro, o que colocaria o Cantareira novamente na faixa de alerta. 

Em cenários mais secos, esse movimento pode ser ainda mais acentuado, com 26% do volume útil no fim de setembro, caso as chuvas fiquem com um volume acumulado de 25% abaixo da média histórica.

Outro fator que limita a recuperação é o próprio funcionamento do sistema. Durante o período seco, a reposição natural de água diminui, enquanto a demanda permanece elevada. Esse desequilíbrio é típico dessa época do ano, mas se torna mais crítico quando os reservatórios já começam o ciclo em patamar inferior ao ideal. 

Na prática, o Cantareira entra na estação seca em condição de vulnerabilidade. A melhora recente reduz o risco imediato, mas não altera o quadro estrutural. A segurança hídrica da região continuará dependente de uma próxima estação chuvosa mais consistente — até lá, o sistema permanece sensível a qualquer desvio negativo no clima.