Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Crise hídrica: por que o Sistema Cantareira está tão baixo?

Em dezembro, o principal sistema de mananciais da Região Metropolitana de São Paulo atingiu o nível mais baixo em quase dez anos

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Os moradores da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) têm na memória a crise hídrica entre 2014 e 2016, quando o Sistema Cantareira — principal conjunto de represas da região — chegou a operar com volume útil zerado. O episódio resultou em rodízios e cortes frequentes no abastecimento de água para mais de 20 milhões de pessoas. O receio agora é de que um cenário semelhante volte a se repetir em 2026.

Esse temor tem base concreta. Em 2025, as chuvas ficaram abaixo da média histórica. Somente o mês de abril registrou volumes acima do esperado. Entre maio e novembro, a retirada de água do Cantareira superou, de forma contínua, a entrada natural de água nos reservatórios, segundo dados da Sabesp, empresa responsável pela gestão do sistema na RMSP.

A combinação entre menor volume de chuvas e maior consumo — superior ao volume que chega ao sistema — levou a uma queda expressiva do nível dos reservatórios do Cantareira e do Alto Tietê, neste fim de ano.

Mesmo considerando que o Cantareira hoje conta com fontes adicionais de abastecimento em relação à crise de 2014–2016, o volume útil armazenado no final de dezembro é o menor desde o encerramento daquele período crítico.

Uma nova crise hídrica

Diante desse quadro, a pergunta central não é mais se enfrentaremos uma nova crise hídrica, mas em que estágio ela já se encontra. Os dados do Sistema Integrado Metropolitano (SIM) ajudam a responder. Em meados de janeiro de 2016, ao final da última crise, o volume total armazenado era de 519,06 hm³ (16/01/2016).

Em dezembro deste ano, esse total caiu para 515,80 hm³ (26/12/2025). No início do mês, chegou a 477,56 hm³ (08/12/2025) — os menores valores desde o término da crise anterior.
É importante lembrar que, na época da crise anterior, o SIM ainda não contava com diversas fontes adicionais de abastecimento implementadas nos últimos anos. Ainda assim, a situação atual é preocupante.

Como resposta, a Sabesp vem reduzindo a pressão na rede de distribuição durante a noite, sob a justificativa de diminuir perdas por vazamentos. Essa estratégia, porém, tende a ser ampliada, o que pode resultar em impactos maiores para a população.

A dúvida, portanto, é se haverá uma repetição do cenário de 2014–2016. Para isso, é fundamental observar as projeções do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN), divulgadas no início de dezembro.

Previsão do CEMADEN

Segundo o boletim Situação Atual e Projeção Hidrológica para o Sistema Cantareira nº 111 (publicado em 04/12), em uma condição média de redução entre 25% e 50% no volume de chuvas, o sistema poderá chegar a março com cerca de 30% de volume útil.

No início de março de 2025, o Cantareira operava próximo de 60%. Em 2024, no mesmo período, superava 75%. A diferença é expressiva e indica uma tendência de deterioração das condições hídricas.

Mesmo com a ocorrência de períodos chuvosos ao longo do verão, a projeção indica que o volume de chuvas previsto não será suficiente para reverter a queda do volume total do SIM.

O fenômeno El Niño, historicamente mais favorável à recarga dos mananciais, só deve retornar no final do próximo ano. Esse cenário aponta para 2026 com menor disponibilidade de água e maiores restrições ao consumo.

Em resumo, a crise já está em curso. O que deve diferenciá-la daquela vivida entre 2014 e 2016 será a forma de gestão da escassez. Se antes os rodízios ocorriam em dias alternados, agora há o risco de interrupções diárias e prolongadas no fornecimento.

Novas obras e limites do sistema

Nos últimos anos, a Sabesp implantou novas fontes de abastecimento e interligou sistemas, o que trouxe maior flexibilidade operacional. Em situações específicas, o fornecimento de determinadas regiões pode ser redirecionado de um reservatório para outro.

Essa flexibilidade, no entanto, tem limites. O volume total do SIM segue baixo, especialmente porque os dois principais sistemas — Cantareira e Alto Tietê — operam com níveis pouco acima de 20%.

Os dados indicam que o desafio já não é evitar a crise, mas administrar a escassez. Em um contexto de menor disponibilidade hídrica, decisões tomadas agora — por gestores e consumidores — definirão o grau de impacto no abastecimento nos próximos meses.