Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Podemos ter uma nova crise hídrica em São Paulo?

Volume total dos reservatórios da Região Metropolitana de São Paulo é o menor em quase dez anos

Vista aérea com drone da represa Atibainha, em Nazaré Paulista, parte do Sistema Cantareira, em 21/09/2025  • Luis Moura/WPP/Estadão Conteúdo
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O Sistema Cantareira — principal conjunto de represas que abastece a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) — voltou a um patamar que não se via desde o fim da crise hídrica de 2014–2016. Com apenas 20,7% de volume útil armazenado, esse sistema registra agora o seu pior início de período úmido em quase uma década.

O alerta não se limita ao Cantareira: o volume total de todos os sistemas metropolitanos somados está em 495 hm³, o menor valor desde o encerramento da crise hídrica anterior.

Os dados históricos revelam uma situação preocupante. Este ano, as chuvas ficaram sistematicamente abaixo da média, especialmente nas cabeceiras que abastecem o Alto Tietê e o Cantareira.

O calor mais intenso, em alguns períodos, também pressionou o sistema de abastecimento. Essa dupla pressão — menos água entrando, mais água saindo — dificultou a recomposição até mesmo nos meses tradicionalmente mais chuvosos.

Embora os sistemas integrados da RMSP tenham hoje maior flexibilidade ao permitir que regiões sejam abastecidas por mais de um sistema produtor, o nível historicamente baixo restringe essa capacidade de manobra.

Na prática, quanto menor o total armazenado, menor a margem de segurança para enfrentamento de períodos secos prolongados.

A memória da crise hídrica de 2014–2016 paira sobre a percepção da população. À época, o Cantareira chegou a operar no volume morto por meses, provocando rodízios intensos e uma pressão intensa sobre a operação da Sabesp, a empresa responsável pelo abastecimento da RMSP.

A comparação com 2014–2016 não significa que vamos repetir o mesmo cenário, mas serve como alerta para os riscos de depender de um regime irregular de chuvas. As mudanças climáticas alteram tanto a quantidade quanto a distribuição temporal das precipitações.

Não há risco imediato de desabastecimento, embora o corte noturno de fornecimento tenha sido intensificado. Entretanto, o período úmido — tradicionalmente entre outubro e março — já começou deficitário.

O problema é que o período úmido ocorrerá sob influência do La Niña, que reduz o volume de chuvas e torna as precipitações irregulares na RMSP. Modelos indicam um La Niña perdendo intensidade na virada do ano. Isso não significa que as chuvas retornarão rapidamente à normalidade.

Tudo isso indica que a RMSP já sente os efeitos de um regime hídrico mais instável. Tendo em perspectiva que essas crises podem se tornar uma constante, é necessário repensar o sistema de abastecimento para que ele se torne mais resiliente às mudanças climáticas. Também é importante que a população pense no uso racional como algo constante e evite o desperdício de água.

O desafio, portanto, é duplo. De um lado, enfrentar a imprevisibilidade climática que tem se tornado a nova regra. De outro, assegurar que a vulnerabilidade revelada agora não se transforme em mais uma crise anunciada.

Em um cenário de extremos mais frequentes, a gestão de recursos hídricos deixa de ser apenas uma operação técnica e se torna uma política estratégica para a resiliência de uma das maiores metrópoles do planeta.