Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

São Paulo: mananciais reagem, mas segurança hídrica é frágil

Chuvas recentes elevam níveis, mas déficit acumulado mantém pressão na estiagem

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Responsáveis por abastecer parte da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), os sistemas Cantareira e Alto Tietê, dois dos principais sistemas que abastecem a RMSP, entram em 2026 com sinais de recuperação após o verão, mas ainda sob risco hidrológico relevante. O Cantareira, que atende uma parcela significativa da população da Grande São Paulo, atingiu 42,7% de armazenamento em meados de março, enquanto o Alto Tietê, também estratégico para o abastecimento urbano, opera próximo de 52%. Apesar da melhora recente, o quadro ainda exige cautela.

O Sistema Cantareira encerra o verão de 2026 com uma recuperação visível, mas ainda insuficiente para afastar o risco hídrico ao longo do ano. O nível de armazenamento chegou a 42,7% em meados de março, após ter fechado fevereiro próximo de 36%, refletindo chuvas mais intensas no fim da estação. Ainda assim, a leitura técnica dos dados hidrológicos aponta para um cenário de atenção, marcado por déficit acumulado e elevada sensibilidade às condições climáticas dos próximos meses.

O diagnóstico converge entre os dados operacionais e as projeções hidrológicas. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN) indica que, mesmo sob precipitação dentro da média histórica entre março e setembro, o Cantareira tende a recuar para cerca de 36% ao fim do período seco, retornando à faixa de alerta. Em cenários mais adversos, com chuvas abaixo da média, o nível pode cair para patamares próximos de 25% ou até inferiores, evidenciando a fragilidade estrutural do sistema neste momento do ciclo hidrológico.

A recuperação observada no verão foi, portanto, mais pontual do que estrutural. Os dados pluviométricos mostram que o acumulado entre outubro de 2025 e março de 2026 ficou aproximadamente 19% abaixo da média histórica na bacia do Cantareira. Mesmo com episódios de chuva acima da média em fevereiro, o déficit ao longo da estação chuvosa não foi totalmente compensado, o que limita a capacidade de sustentação dos níveis durante a estiagem.

No caso do Sistema Alto Tietê, a situação é mais confortável, embora ainda demande cautela. O nível em torno de 52% no fim do verão coloca o sistema em condição mais robusta para atravessar o período seco, sobretudo em comparação com o Cantareira. Ainda assim, o regime de chuvas também apresentou desvios negativos ao longo da estação, o que reduz a margem de segurança e reforça a necessidade de gestão conservadora.

O pano de fundo climático adiciona uma camada adicional de incerteza. O enfraquecimento da La Niña e a transição para neutralidade indicam um período de menor previsibilidade no curto prazo. Há mais de 60% de probabilidade de formação de um El Niño no segundo semestre, o que, em tese, poderia favorecer a recuperação hídrica no Sudeste. No entanto, esse eventual efeito positivo tende a se concentrar na primavera e no verão, enquanto o principal desafio para os reservatórios ocorre entre abril e setembro, quando a recarga natural é sazonalmente limitada.

Na prática, o sistema entra no período seco com uma assimetria de risco desfavorável: há pouco espaço para deterioração adicional e limitada capacidade de recuperação rápida. Isso significa que, embora não haja um cenário de crise iminente, o equilíbrio hídrico permanece frágil e dependente de variáveis climáticas que fogem ao controle operacional.

A leitura consolidada é clara. O verão trouxe alívio, mas não resolveu o problema. O Cantareira segue operando no limite inferior da zona de conforto e deve voltar a pressionar a gestão hídrica ao longo de 2026. Já o Alto Tietê oferece uma folga relativa, mas não suficiente para compensar integralmente a vulnerabilidade do sistema metropolitano como um todo. Em um contexto de transição climática e maior volatilidade hidrológica, a segurança hídrica da maior região urbana do país continua condicionada a uma combinação delicada entre clima, gestão e demanda.