Análise: RS avança na reconstrução, mas risco climático persiste
El Niño moderado não elimina risco de eventos extremos combinados no segundo semestre
Dois anos após um dos eventos climáticos mais graves já registrados no Brasil em extensão territorial e população atingida, o governador Eduardo Leite, em entrevista coletiva, apresentou um discurso estruturado, tecnicamente consistente e politicamente calibrado para sustentar uma ideia central: o Estado está mais preparado. A evidência empírica dessa afirmação existe — mas não esgota o problema. Há questões climáticas que precisam ser consideradas e demandam maior preocupação, pois o estado permanece vulnerável a um evento semelhante.
Há, de fato, um esforço robusto de recomposição da infraestrutura. O Plano Rio Grande, com cerca de R$ 14 bilhões distribuídos em mais de duas centenas de projetos, materializa essa resposta em escala rara no contexto subnacional brasileiro. As intervenções são concretas: recuperação de diques, modernização de casas de bombas, recomposição de comportas e redes de drenagem urbana.
Na malha viária, a reconstrução de cerca de 1.200 quilômetros de estradas, com elevação de cota e novos sistemas de escoamento, indica uma mudança de padrão — reconstruir não como antes, mas com alguma adaptação ao risco climático.
Também há ganhos relevantes no que se poderia chamar de “infraestrutura invisível”. A criação de uma rede de radares meteorológicos, a ampliação de estações hidrometeorológicas e o uso de modelagem hidrodinâmica elevam o nível de monitoramento e antecipação de eventos extremos. A quadruplicação da Defesa Civil e o investimento em equipamentos de resposta rápida reforçam a capacidade operacional do Estado. Em termos institucionais, trata-se de um avanço claro.
Mas o ponto crítico está menos no que foi feito — e mais no que ainda não está plenamente estruturado. O governo menciona iniciativas de resiliência, como o reordenamento da ocupação urbana em áreas de risco, a criação de parques lineares e a adoção de soluções baseadas na natureza. Há, ainda, adaptações em obras de engenharia, como rodovias mais elevadas e pontes mais robustas. Essas medidas apontam na direção correta.
O diagnóstico apresentado para 2026 aposta no cenário central de um El Niño de baixa a moderada intensidade. Essa leitura é tecnicamente defensável dentro do cenário mais provável, mas carrega um risco conhecido em análise climática: o de subestimar eventos de cauda que são cenários pouco prováveis estatisticamente, mas potencialmente devastadores — e justamente por isso não podem ser ignorados.
É importante lembrar que, em dezembro de 2023, os modelos climáticos do International Research Institute for Climate and Society (IRI) da Universidade de Colúmbia apontavam para um El-Niño que passaria de alta para média e depois baixa intensidade nos primeiros meses de 2024, o que de fato ocorreu.
Mesmo com o enfraquecimento do El-Niño, o RS enfrentou sua maior tragédia. Portanto, não se pode considerar que um El Niño de média intensidade seja menos problemático para a região sul do país.
O IRI é a principal referência internacional para as previsões sobre o El-Niño – La-Niña, fornecendo uma avaliação probabilística que combina múltiplos modelos climáticos internacionais, traduzindo incertezas em risco real para tomada de decisão.
Mais relevante do que isso, porém, é o mecanismo que esteve no centro da tragédia de 2024 e que aparece apenas de forma secundária na narrativa atual: a ocorrência de bloqueios atmosféricos. Esses sistemas, ao dificultarem o deslocamento de frentes frias, podem favorecer a persistência da chuva sobre o Sul do Brasil, amplificando significativamente os impactos hidrológicos. Foi essa combinação — e não apenas o El Niño — que produziu o evento extremo observado.
Nada indica que esse tipo de configuração atmosférica esteja fora do radar da ciência. Mas ele não ocupa o mesmo espaço na comunicação pública. O foco permanece no fenômeno mais conhecido, o El Niño. Ele é mais modelável e, sobretudo, mais comunicável. É uma escolha compreensível — mas não necessariamente suficiente para alertar a população.
A consequência é clara: o Estado avançou na reconstrução e na resposta, mas o risco climático mais relevante — de eventos combinados — segue fora do centro da estratégia.
Em 2026, essa abordagem será testada na execução das obras, na resposta a eventos moderados e, sobretudo, na evolução climática no segundo semestre, quando El Niño e possíveis bloqueios podem redefinir o cenário climático.



