Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

COP da Verdade: Lula recoloca o Brasil no centro da agenda climática global

Lula cobra coragem política, justiça climática e compromisso concreto com o futuro do planeta.

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Mais de 30 anos depois da ECO-92, a Convenção do Clima retorna ao país onde nasceu e, pela primeira vez, uma COP acontece no coração da Amazônia. Em Belém, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu oficialmente a COP30 com um discurso que uniu simbolismo e realismo político, reforçando a responsabilidade do Brasil e da comunidade internacional diante da crise climática.

Lula chamou a conferência de “a COP da Verdade”, como um momento para derrotar o negacionismo climático e o discurso anticientífico que semeia ódio e ataca instituições. Conclamou os países a encarar os alertas da ciência e transformar promessas em ação.

Propôs a criação de um Conselho do Clima na ONU para dar a devida estatura política à questão climática, mirando um futuro sustentável e justo.

Ele lembrou que 2024 foi o primeiro ano em que a temperatura média global superou 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais e citou estimativas que apontam para um aquecimento de até 2,5 °C até o fim do século. Sobre o Acordo de Paris, ele disse que estamos andando na direção certa, mas na velocidade errada.

O presidente ressaltou que a Amazônia, com seus povos e biodiversidade, é símbolo máximo da causa ambiental. Reiterou que a floresta abriga quase 50 milhões de pessoas e centenas de povos indígenas, cuja sobrevivência depende da reconciliação entre prosperidade e preservação.

Lula situou a COP30 como ponto culminante de um ciclo diplomático que incluiu as presidências brasileiras do G20 e dos BRICS, nas quais o país articulou temas ambientais e financeiros.

Defendeu a criação de um mapa do caminho para superar a dependência de combustíveis fósseis e garantir financiamento, tecnologia e capacitação aos países em desenvolvimento.

Para Lula, a justiça climática caminha com o enfrentamento da fome e da pobreza, com a luta contra o racismo, com a busca pela igualdade de gênero e com a construção de uma governança global mais justa, diversa e participativa.

Margem equatorial e transição energética

Estrategicamente, o presidente Lula não mencionou a recente licença concedida à Petrobras para prosseguir com as pesquisas na Margem Equatorial. A autorização foi dada pelo Ibama apenas três semanas antes do início da COP30.

O tema é sensível e representa um contraponto à imagem de um país que lidera a transição energética. Esse avanço deveria ter merecido maior destaque no discurso presidencial.

O discurso recoloca o Brasil como referência no debate climático. Ainda assim, a “COP da Verdade” exige mais que liderança retórica — pede coerência entre a imagem de potência ambiental e as escolhas energéticas que definirão o rumo do país nos próximos anos.