Análise: Dengue avança com o calor na Europa
Verões mais quentes ampliam a janela de transmissão local da dengue; risco também depende da combinação entre clima, circulação do vírus e falhas na vigilância

O mosquito-tigre já estava estabelecido, em junho de 2025, em 369 regiões de 16 países da União Europeia e do Espaço Econômico Europeu. O levantamento do Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças, o ECDC, muda o significado sanitário das ondas de calor: além dos efeitos diretos sobre a saúde, elas prolongam a temporada favorável aos vetores.
Isso não significa que o calor, sozinho, cause dengue. A transmissão exige a coincidência entre temperaturas adequadas, presença do mosquito, criadouros disponíveis e a chegada de uma pessoa infectada durante o período em que o vírus ainda circula em seu organismo.
Segundo o ECDC, a faixa considerada ótima para a transmissão pelo Aedes albopictus está entre médias diárias de 24°C e 26°C, embora o processo possa ocorrer aproximadamente entre 12°C e 30°C. Mais preocupante que um pico isolado de calor é a persistência de semanas quentes, combinada com invernos mais amenos.
A Europa, portanto, deixou de registrar apenas casos importados. Dados do ECDC mostram que o continente teve 304 casos de dengue adquiridos localmente em 2024, ante 130 em 2023 e 71 em 2022. Em 2025, o total recuou para 33, demonstrando que o risco está aumentando, mas não avança de forma linear.
A França oferece o retrato mais recente desse mecanismo. A Santé publique France contabilizou 206 casos importados até 5 de julho de 2026, sem registro de transmissão autóctone no território continental até 8 de julho.
O resultado é tranquilizador, mas também expõe a vulnerabilidade. Cada viajante infectado que chega durante a estação de atividade do mosquito pode iniciar uma cadeia local, caso o diagnóstico, a vigilância epidemiológica e o controle do vetor não funcionem com rapidez.
A evidência científica reforça essa leitura. Estudo publicado em 2025 na revista The Lancet Planetary Health associou cada aumento de 1°C na temperatura média do verão a uma elevação de 55% no risco estatístico de ocorrer o primeiro surto local de dengue ou chikungunya.
O resultado não significa que uma pessoa passe a ter 55% mais probabilidade de contrair a doença. Ele indica maior chance de uma região registrar seu primeiro episódio de transmissão local, mesmo depois de considerados fatores como casos importados, uso do solo e gastos públicos em saúde.
Para os governos europeus, os custos tendem a surgir antes de uma epidemia. Será necessário ampliar armadilhas, equipes de campo, testes, comunicação pública e capacidade de resposta. Em economias dependentes do turismo, a mensagem terá de combinar transparência com precisão: o risco é real, mas permanece localizado.
A Europa não está se tornando tropical de uma hora para outra. O que está desaparecendo é parte da antiga margem de segurança proporcionada pelo clima. O calor não transporta o vírus, mas mantém a porta aberta por mais tempo.



