Pedro Duran
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Pedro Duran

O pai do Benjamin passou pela TV Globo, CBN e UOL. Na CNN, já atuou em SP, Rio e Brasília e conta histórias das cidades e de quem vive nelas

Cardeais traçam 7 atributos desejados para o futuro papa; saiba quais são

Última reunião dos cardeais terminou às 12h30 de terça-feira, véspera do conclave

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Os cardeais reunidos no Vaticano traçaram aquele que esperam que seja o perfil do novo papa.

"Temas como as leis contra os abusos, questões econômicas, a renovação da Cúria Romana, a sinodalidade, o compromisso com a paz e o cuidado com a criação foram amplamente debatidos", disse a equipe de comunicação oficial da Igreja no segundo dia de debates entre os maiores representantes da cúpula da Igreja Católica sobre o que esperam daquele que vai ocupar o trono de São Pedro.

1 - Continuar reformas

Esse é o primeiro ponto e talvez um dos mais cruciais para a escolha do futuro pontífice. Com cerca de 80% dos cardeais nomeados pelo papa Francisco, vaticanistas esperam que o próximo passo da Igreja não seja uma “guinada” conservadora.

A característica pode, portanto, acabar minando as chances de representantes dessa ala, que defendem, por exemplo, missas tradicionais em latim ou até mesmo o padre de costas para o povo, como era antigamente.

O americano Raymond Leo Burke e o ganense Robert Sarah são representantes dessa tendência mais conservadora.

2 - Compromisso com a paz

A segunda característica desejada é o compromisso com a paz. As guerras foram um dos temas mais citados na Congregação Geral dos Cardeais, que estiveram reunidos ao longo de 11 dias discutindo os rumos da igreja.

A meta pode dar vantagem a cardeais que tiveram êxito na promoção da paz em meio a conflitos. É o caso de Matteo Zuppi, que atuou diretamente para um acordo de paz em Moçambique e foi designado por Francisco para atuar nas conversas diplomáticas com Rússia e Ucrânia.

O italiano Pierbatista Pizzaballa também levaria vantagem nesse quesito, uma vez que, como patriarca latino de Jerusalém, atuou ao longo dos últimos anos no coração do conflito deflagrado no Oriente Médio.

3 - Construtor de pontes

Um dos mais cotados, Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano, teve participação direta — como número dois da Igreja — em negociações relacionadas não só ao Oriente Médio e ao conflito da Rússia com a Ucrânia, mas também com a costura de um acordo com o governo chinês para a nomeação de bispos.

Depois de presidir o Pontifício Conselho Justiça e Paz de 2009 a 2017 e se tornar o primeiro prefeito do Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral de 2017 a 2021, o ganês Peter Turkson também foi escolhido por Francisco para uma missão de paz, e chegou a ser impedido de entrar na Costa do Marfim em meio ao conflito civil.

Os perfis vão ao encontro da terceira característica citada, a de "construtor de pontes".

4 E 5 - Pastor, mestre de humanidade e rosto samaritano

A quarta e a quinta características citadas são semelhantes. Os cardeais falaram em "pastor e mestre de humanidade" e o "rosto de uma igreja samaritana". Os atributos se alinham com a visão "pastoral" ou "pastoralista", citadas nessa segunda-feira (5) durante as Congregações Gerais.

Na prática, há diversos cardeais que poderiam se enquadrar no perfil. Brasileiros reunidos para o conclave sugeriram que esse perfil se enquadraria em qualquer bispo, pois é o esperado para o clero.

No entanto, a lista dos mais cotados tem dois grupos de cardeais: aqueles mais voltados para gestão, academia e diplomacia; e os que têm em suas bases uma forte adesão cristã — que vivenciam na prática o 'pastoreio' buscado pela Igreja.

No grupo dos eruditos está o cardeal húngaro Péter Erdő. Mais alinhado com os pensamentos conservadores, Erdő despontou entre esses representantes, segundo vaticanistas, por não ter um perfil tão extremo e ter evitado críticas abertas contra o papa Francisco, fazendo apenas questionamentos sutis e pontuais sobre questões específicas de seu pontificado. Ainda assim, a visão dos especialistas é de que o grupo conservador é minoritário no conclave, sendo incapaz de alcançar os dois terços de votos necessários.

Outro candidato que poderia se encaixar nessas características “pastoralistas” é o cardeal Luis Antonio Tagle, prefeito do Dicastério para a Evangelização dos Povos.

Diversas imagens que circulam na internet revelam Tagle em sintonia com multidões em diversos eventos. A eleição dele poderia simbolizar ainda um novo passo para a internacionalização da Igreja Católica.

Mas essa não é uma exclusividade do filipino. O arcebispo de Bolonha, Matteo Zuppi, e o arcebispo de Marselha, Jean-Marc Aveline, têm o mesmo prestígio em suas respectivas comunidades e são frequentemente apontados como opções viáveis entre os apostadores.

Recentemente um nome passou a ser mais citado pelos veículos internacionais, o do arcebispo de Manaus, Leonardo Steiner.

O brasileiro é o primeiro cardeal "da Amazônia" e poderia ser uma sinalização clara dos objetivos da Igreja de ajudar a cuidar do meio ambiente e dos povos originários. Analistas, no entanto, minimizaram à CNN as chances de um papa brasileiro.

6 - Escuta "sinodal"

A sexta característica que desponta como desejada pelos cardeais é a de ter "escuta sinodal", que nada mais é do que a conexão com as decisões colegiadas por bispos da Igreja. Não à toa, o papa Francisco ampliou o debate interno com a realização dos Sínodos.

Além de Péter Erdő, que já teve a função de relator-geral do Sínodo sobre a Família e na Assembleia Geral de 2014, surge também o nome do maltês Mario Grech e do americano Robert Prevost, atuais Secretário-Geral do Sínodo e prefeito do Dicastério para os Bispos, respectivamente.

Conselheiro direto de Francisco no final de seu pontificado, o nome de Prevost tem crescido entre os pares, apesar da resistência histórica à escolha de um papa dos Estados Unidos.

Pesa a favor dele o longo período de atuação no Peru, o que o torna um nome com potencial aceitação especialmente nas Américas. Grech também é visto com linha similar à de Francisco.

7- Misericórdia e esperança

A sétima e última característica citada foi a "misericórdia e esperança", que é inerente à função religiosa e ao ofício pastoral.

Apesar do detalhamento feito pelos cardeais durante as Congregações Gerais, é impossível, segundo os vaticanistas, prever quem será eleito.

O perfil traçado não é excludente — diferentes cardeais podem se encaixar na lista, independentemente do cargo ou atuação.

As características, por outro lado, ajudam a detalhar as expectativas da Igreja católica para além do novo papa.

A Congregação Geral serviu ainda para referendar passos importantes dados por Francisco e dar a oportunidade para os cardeais ouvirem seus pares e amadurecerem seus votos a partir do confinamento que teve início nesta terça (6), embora o conclave comece nesta quarta (7).