Pedro Venceslau
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Pedro Venceslau

Pós-graduado em política e relações internacionais, foi colunista de política do jornal Brasil Econômico, repórter de política do Estadão e comentarista da Rádio Eldorado

Análise: Lula repete 2002 e busca neutralidade eleitoral do centrão

Presidente tenta impedir que PP, União, Republicanos e PSD subam no palanque da oposição

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) gostaria de formar uma frente ampla com partidos de centro para disputar o quarto mandato, mas, por enquanto, a coligação do petista conta apenas com siglas de esquerda.

Os operadores políticos do PT ainda sonham com o apoio do MDB, que poderia indicar o vice na chapa. No entanto, segundo dirigentes emedebistas, a tendência é que o partido mantenha a neutralidade.

Diante da dificuldade de ampliar o espectro partidário do palanque, Lula adota em 2026 uma estratégia similar à de 2002, mas com atores diferentes.

Naquele ano, o gigante PFL, que era aliado do presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), optou pela neutralidade na eleição, enquanto o PMDB se alinhou com o candidato governista, José Serra (PSDB).

O candidato do PT até conseguiu furar a bolha da esquerda ao atrair o na época pequeno PL, hoje partido com maior número de congressistas e de fatia do fundo eleitoral. A atual legenda do ex-presidente Jair Bolsonaro se somou na ocasião aos comunistas do PCdoB e do PCB, além do nanico PMN.

“Nós dividimos o PMDB no Brasil inteirinho: Luiz Henrique (eleito governador de Santa Catarina em 2002), (o ex-senador e ex-governador do Paraná Roberto) Requião, Jader (Barbalho, ex-governador e atual senador pelo Pará), (o ex-governador de São Paulo Orestes) Quércia, José Maranhão (ex-governador e ex-senador da Paraíba). Sem metade do partido, a vida do candidato tucano em 2002 ficaria difícil, porque o PFL ficou neutro”, disse o ex-ministro José Dirceu no livro “PT, uma história”, do sociólogo Celso Rocha de Barros.

Em 2026, quem deve optar pela neutralidade é o MDB, enquanto os alvos da ofensiva petista serão a federação União-PP, o Republicanos e o PSD.

Desta vez, o presidente tem a retaguarda da máquina pública para atrair lideranças regionais desse triunvirato do centrão.

O lançamento da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) fortaleceu as alas governistas do PP e União, que já admitem a neutralidade.

O fator Tarcísio no Republicanos

No Republicanos, o presidente tem dois aliados estratégicos que têm planos regionais alinhados a Lula.

O ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, vai disputar o Senado em Pernambuco em um grande palanque de esquerda, enquanto o presidente da Câmara, Hugo Motta, alinhou seu grupo político com os petistas na Paraíba, para tentar eleger senador o pai, Nabor Wanderley.

Essa engenharia, no entanto, mudaria drasticamente se o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), entrar na disputa presidencial pelo partido.

Nesse cenário, o chefe do Executivo paulista atuaria para montar um palanque amplo com o centrão.

Tarcísio teria o maior tempo de exposição na TV, mas isso não significa que o bloco estaria unido.

Restaria ao PT seguir com ainda mais ênfase a tática de Dirceu em 2002 de costurar dissidências regionais para dificultar a mobilidade do adversário, sobretudo no Nordeste.