Priscila Yazbek
Blog
Priscila Yazbek

Correspondente em Nova York, Priscila é apaixonada por coberturas internacionais e econômicas — e por conectar ambas. Ganhou 11 prêmios de jornalismo

Eleição de Trump pode beneficiar países emergentes como o Brasil, diz fundador do MCP Emerging Markets

Gestor especializado em mercados emergentes destaca oportunidades de investimentos após as eleições nos EUA

Compartilhar matéria

Com a eleição de Donald Trump e as suas promessas de elevar tarifas sobre importação e revirar a maior economia do mundo, as apostas sobre os impactos das suas medidas para o comércio global foram lançadas. Na visão da Mobius Capital Partners, gestora especializada em mercados emergentes, o governo Trump pode ser prejudicial a países como a China, mas pode beneficiar o Brasil.

Em entrevista ao CNN Money, Carlos von Hardenberg, fundador do MCP Emerging Markets, disse que o Brasil é visto como um parceiro “amigável e confiável” dos Estados Unidos. Hardenberg fundou a gestora de investimentos britânica em 2018, em parceria com Mark Mobius, conhecido como o guru dos mercados emergentes. A empresa tem cerca de US$ 250 milhões em ativos sob gestão.

A eleição americana não alterou sua visão de que os mercados emergentes oferecem oportunidades de investimento atraentes atualmente.

“Vemos benefícios potenciais para certos mercados emergentes sob a administração Trump, incluindo o Brasil. Acreditamos que o Brasil é visto por Trump e pelos EUA como um parceiro comercial amigável e confiável, que provavelmente não será alvo de altas tarifas ou medidas punitivas", disse Hardenberg.

Donald Trump prometeu elevar as tarifas sobre produtos importados pelos Estados Unidos para 10% a 20% para os países de forma geral e para 60% no caso da China.

Para o cofundador da Mobius, o Brasil pode se beneficiar do chamado “Trump Trade” - a onda de operações impulsionadas pela eleição do republicano - à medida que potências ocidentais já buscavam reduzir a dependência do mercado chinês, movimento que pode se acentuar diante da elevação das tarifas sobre produtos da China.

Segundo Hardenberg, o aumento das tarifas sobre importação deve deixar produtos chineses menos competitivos, criando lacunas na cadeia de abastecimento que podem ser preenchidas por países de produção de baixo custo, como por exemplo Brasil, Índia, Vietnã e México.

Hardenberg espera que Trump inicialmente adote “medidas mais radicais” para depois começar a negociar, mas não acredita que seja do interesse do novo presidente prejudicar seus parceiros comerciais. Para ele, a economia americana deve se fortalecer no curto prazo, o que seria positivo para o mundo, mas há dúvidas sobre os efeitos da gestão Trump no longo prazo.

“No curto prazo, as políticas de Trump, como cortes de impostos e desregulamentação, poderão impulsionar o crescimento econômico dos EUA, o que provavelmente beneficiaria os mercados globais, incluindo os emergentes, aumentando as exportações. Mas os economistas continuam divididos sobre a sustentabilidade a longo prazo destas medidas, que podem acarretar déficits mais elevados e impactos variados em diferentes setores", afirma.

O gestor recomenda que neste momento o investidor evite se deixar envolver pela retórica eleitoral de Trump e mantenha o foco em estratégias, convicções de longo prazo e nos fundamentos das empresas.

O cofundador da Mobius acredita que a agenda pró-negócios de Trump poderá impulsionar as grandes empresas de tecnologia dos EUA, beneficiando pequenas e médias empresas de mercados emergentes, sobretudo aquelas que atuam nas cadeias de fornecimento de inteligência artificial e de semicondutores.

Para ele, as melhores oportunidades de investimento surgem quando há ceticismo e pouca confiança no mercado - e o Brasil é um ótimo exemplo disso, em suas palavras.

“Este é um momento muito bom para considerar investimentos nos mercados emergentes, porque eles estão negociando a uma avaliação incrivelmente interessante e estão se recuperando gradualmente. Há uma recuperação do consumo na Ásia, na China, na América Latina e no Brasil, que também apresenta resultados econômicos muito bons”, afirmou Hardenberg.

Sobre o Brasil, Hardenberg avalia que os dados de emprego e exportação estão avançando e a inflação está mais controlada. “O Brasil está em um ponto ideal agora, o mercado está oferecendo uma oportunidade incrível porque o Brasil tem negócios únicos que avançaram na cadeia de valor e se tornaram mais competitivos globalmente", disse.

Onde estão as oportunidades no Brasil?

Carlos von Hardenberg afirma que os investimentos mais atrativos do mercado brasileiro hoje estão nos setores de consumo, tecnologia e entre os negócios orientados para a exportação.

“O Brasil é realmente neste momento um dos mercados mais interessantes no universo dos mercados emergentes.”

O cofundador da Mobius diz que a gestora busca nomes de referência e companhias que são lideradas por empresários habilidosos e transparentes. “Amamos empresas que são empreendedoras e inovadoras e há muito disso no Brasil”, afirma.

Questionado sobre papéis específicos, Hardenberg disse que a gestora tem em seu portfólio ações da desenvolvedora de software Totvs, que segundo ele “é um negócio muito bem-sucedido, sofisticado e administrado por um grupo de gestores muito talentosos”.

A Mobius investe também na rede de academias Smart Fit, que “não faz sucesso apenas no Brasil, mas também em outros países da América Latina e planeja até expandir seus negócios para outros continentes", diz.

Além de exaltar o setor empresarial, o gestor também elogiou a condução do Banco Central do Brasil diante dos choques da pandemia e da guerra na Ucrânia.

“O Brasil é um grande exemplo de um país em que houve muita resiliência e atividades do Banco Central muito fortes e muito bem administradas. O Banco Central brasileiro, que estava à frente da curva, apertou as taxas de forma muito agressiva para proteger a moeda e para garantir que a economia permanecesse em uma base estável.”

Preocupações sobre Europa

A Mobius observa com muito cuidado o aumento de tarifas nos Estados Unidos, que deve ter diferentes impactos sobre o mercado global. Para a empresa, há uma preocupação maior com a Europa do que com o Brasil, que está mais acostumado a lidar com cenários de incertezas.

"Odeio dizer isso como europeu, mas acho que o setor público brasileiro e o setor privado estão se ajustando mais rapidamente do que muitos governos e participantes do setor privado na Europa", afirma.

À medida que as condições financeiras globais e a demanda se estabilizam, os exportadores brasileiros podem consolidar sua participação no mercado global, segundo Hardenberg.

“O Brasil tem vantagens enormes: um mercado de trabalho muito vasto, talentoso e cheio de recursos; uma população muito jovem; e os empreendedores brasileiros também são muito jovens, flexíveis e cada vez mais capazes de competir globalmente. Então você não deveria se surpreender ao ver empresas brasileiras competindo até mesmo na Ásia.”

Hardenberg destaca ainda que o Brasil continua sendo um dos mais importantes exportadores mundiais de commodities. “À medida que o mundo está se estabilizando, o Brasil está ganhando uma espécie de dividendo extraordinário com essas exportações de commodities. Não estou falando apenas de minério de ferro, mas também de commodities agrícolas e, cada vez mais, como eu disse, também de produtos tecnológicos mais sofisticados.”

Acompanhe Economia nas Redes Sociais