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    Priscila Yazbek

    Priscila Yazbek

    Correspondente em Paris, Priscila é apaixonada por coberturas internacionais e econômicas — e por conectar ambas. Ganhou 11 prêmios de jornalismo

    Alemanha e França invertem papéis na economia

    Apostas erradas no setor energético alemão e governo pró-mercado na França levam Paris a desbancar Berlim como destino favorito dos empresários

    Alemanha e França invertem papéis na economia
    Alemanha e França invertem papéis na economia

    A economia francesa cresceu 0,9% em 2023, um resultado tímido, mas digno perto da queda de 0,3% da Alemanha.

    Os números são uma síntese do momento que vivem as duas maiores economias da União Europeia.

    A Alemanha das indústrias de ponta e do reinado de Angela Merkel está perdendo o posto de paraíso dos negócios para a França, um país frequentemente criticado pelo papel pesado do Estado na economia.

    Artigos sobre as vantagens de Paris frente a Berlim se multiplicaram ao longo de 2023.

    A revista britânica The Economist resumiu que se antes os líderes franceses olhavam “para além do Reno com olhos invejosos”, agora os empresários alemães estão “frustrados com a disfuncional coalizão de três partidos do país e olham com admiração para o governo francês, que prioriza negócios”.

    O alemão Der Spiegel usou o título “França – a Alemanha melhorada”. E o Deutsche Welle destacou que se a França era descrita, até pouco tempo atrás, como “o homem doente da Europa” pela falta de reformas econômicas e o desemprego elevado, hoje “esse título parece absurdo”.

    As manchetes refletem os dados: a França vem liderando por quatro anos seguidos a atração de investimentos estrangeiros dentre os países europeus, segundo o levantamento mais recente da consultoria Ernst & Young.

    Mas como a inversão de papéis aconteceu?

    A começar pelos fatores econômicos, uma explicação central está nas apostas feitas por cada país em suas matrizes energéticas.

    Se a energia é o custo de partida de qualquer produção, de um alfinete a um carro, erros na base podem contaminar toda a cadeia.

    Berlim apostou no gás russo. Moscou fornecia à Alemanha 60% de todo o gás consumido no país antes da invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022.

    Pouco antes da guerra, os americanos já tinham alertado que a Alemanha estava refém dos russos por causa da dependência energética.

    Com o conflito, os alemães foram obrigados a correr para buscar outros fornecedores e a mudança de estratégia cobrou seu preço: a energia subiu 34,7% em 2022.

    Já a França colocou suas fichas na energia nuclear, que é mais barata e representa cerca de 70% da sua produção total de energia.

    Os preços também dispararam em 2022, mas menos do que na Alemanha: a inflação da energia francesa chegou a 23%.

    O assunto é discutido também no âmbito da União Europeia, já que ambos os países lideram as tomadas de decisão sobre a matriz energética do bloco.

    A França sempre defendeu a energia nuclear e a Alemanha, o gás. Mas agora diplomatas franceses se gabam do fato de que eles estavam certos e os alemães, errados.

    Para além da questão energética, os ventos sopraram a favor do modelo econômico francês e contra o alemão.

    A França tem um setor de serviços robusto, que tem alcançado bons resultados sobretudo na área do turismo, com o boom das viagens pós-pandemia.

    Em 2023, empresas francesas também faturaram bilhões de euros com a venda de aviões e navios de cruzeiro.

    Já a economia alemã, centrada na indústria transformadora que depende de exportações, sentiu o impacto da desaceleração do comércio internacional.

    As multinacionais alemãs se beneficiaram por anos de fatores de produção baratos — como mão de obra do leste europeu e o gás russo — e das fortes exportações para a China e os Estados Unidos.

    Mas as barreiras comerciais levantadas pela disputa comercial entre chineses, americanos e a UE romperam a dinâmica virtuosa da indústria alemã.

    E ainda existem os fatores políticos.

    O governo alemão, chefiado pelo chanceler Olaf Scholz, é atualmente dirigido por uma coalizão tripartite, formada pelos sociais-democratas do SPD, os Verdes e os democratas livres do FDP. As discordâncias dos ministros dos três partidos travam entre si iniciativas políticas importantes para o crescimento do país.

    Já a França, baseada em um sistema semipresidencialista, que garante mais poder de decisão ao presidente, tem usado sua estrutura política mais centralizada para apoiar o setor privado.

    O dirigismo antes criticado pelos empresários, agora é elogiado pela mesma classe empresarial ao ser regido por Emmanuel Macron, um ex-banqueiro e um presidente pró-mercado.

    Macron indicou quadros empresariais para o governo, acelerou a inovação de setores-chave da economia com o programa France 2030 — que prevê investimentos de 54 bilhões de euros — e colocou em risco a sua popularidade para fazer passar a Reforma da Previdência, que era rejeitada por 70% da população francesa.

    Por fim, existe o soft power, o poder de influência de cada país, que muitas vezes se confunde com a influência pessoal de seus líderes.

    De conversas informais em bares e cafés, a cúpulas que reúnem chefes de Estado, Macron é visto como um líder de opiniões fortes, enquanto Scholz é considerado tímido.

    Os franceses podem até criticar as decisões de Macron — e não são poucos os que o fazem —, mas reconhecem que seu presidente busca um protagonismo na Europa.

    Enquanto isso, os alemães não se cansam de comparar Scholz a Merkel, lamentando a perda de liderança do seu país.