Análise: Groenlândia é teste existencial na relação entre EUA e Europa
Europeus avaliam responder ameaças de Donald Trump com "bazuca comercial", mas temem colocar em risco o futuro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e a parceria com os Estados Unidos

A ameaça do presidente Donald Trump de impor tarifas sobre países europeus caso a Groenlândia não seja vendida aos Estados Unidos abriu uma nova crise na relações entre os americanos e os europeus.
Em um comunicado conjunto divulgado neste domingo (18), Alemanha, Dinamarca, Finlândia, França, Noruega, Países Baixos, Reino Unido e Suécia afirmaram que as ações do presidente norte-americano podem desencadear uma “perigosa espiral descendente” nas relações transatlânticas.
O texto responde à publicação feita no sábado (17) por Trump, que afirmou que os Estados Unidos irão impor tarifas de 10% sobre produtos desses oito países a partir de fevereiro, elevando a alíquota para 25% em junho, caso um acordo para a compra integral da Groenlândia não seja concluído.
Todos esses países já estão atualmente sujeitos a tarifas americanas entre 10% e 15% e enviaram contingentes militares simbólicos para a ilha.
Trump voltou a demonstrar interesse pela Groenlândia após se sentir encorajado pela operação americana que levou à captura de Nicolás Maduro em 3 de janeiro. O presidente argumenta que os Estados Unidos teriam melhores condições de proteger a ilha semiautônoma de interesses da Rússia e da China do que a Dinamarca, que hoje detém a soberania do território.
Especialistas, no entanto, questionam as justificativas apresentadas por Donald Trump. Sobre a questão militar, afirmam que a presença militar americana na região poderia ser reforçada sem a necessidade de anexação da Groenlândia e argumentam que os desafios mais urgentes de segurança no Ártico estão concentrados no Alasca.
Quanto aos minerais de terras raras, outro interesse citado pelo republicano, analistas avaliam que empresas americanas não precisariam de uma transferência de soberania para obter concessões de mineração, mas poucas companhias demonstraram interesse, porque os custos de extração são exorbitantes.
Trump insiste em comprar a Groenlândia desde o início de seu segundo mandato presidencial. Mas se até o ano passado europeus acreditavam que a questão não ultrapassaria o limite da retórica, agora consideram que a ameaça é séria.
O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, afirmou em entrevista à NBC neste domingo (18) que “a disputa pelo Ártico é real” e a Europa deveria “entregar” a Groenlândia para evitar um conflito. “A Europa projeta fraqueza, enquanto os Estados Unidos projetam força”, declarou Bessent.
Diante da percepção de que Trump não está blefando, a Europa avalia possíveis respostas aos EUA.
Neste domingo (18), parlamentares europeus anunciaram a suspensão da ratificação do acordo comercial entre Estados Unidos e União Europeia, firmado no ano passado.
E embaixadores dos 27 países do bloco se reuniram em caráter emergencial neste domingo (18) em Bruxelas. Segundo apurações feitas na reunião pelo jornal Financial Times, capitais europeias avaliam impor tarifas de até US$ 108 bilhões sobre produtos americanos.
Um conjunto de medidas está sendo estudado para dar poder de barganha aos líderes europeus em encontros decisivos com Trump nesta semana, à margem do Fórum Econômico Mundial, em Davos.
Uma fonte do governo da França afirmou ainda que o presidente Emmanuel Macron pretende pressionar a União Europeia a acionar o chamado “Instrumento Anti-Coerção” caso os EUA avancem com as tarifas.
O mecanismo, que nunca foi utilizado, é visto como uma das armas mais poderosas do bloco europeu. Apelidado de “bazuca comercial”, a ferramenta permitiria restringir importações de bens e serviços e impor limites a grandes empresas de tecnologia americanas.
Especialistas alertam, no entanto, que o uso elevaria drasticamente o nível do confronto entre Estados Unidos e Europa.
Uma escalada comercial teria custos elevados para o continente, tanto do ponto de vista econômico, quanto de segurança. A Europa continua dependente do apoio americano no âmbito da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) - a aliança militar entre os europeus e os americanos -, especialmente diante da guerra da Rússia contra a Ucrânia.
Por isso, apesar do endurecimento do discurso, líderes europeus ainda têm esperança de resolver o assunto no diálogo.
A discussão extrapolou a disputa pela Groenlândia. O que está em jogo agora é o futuro da Otan, da relação entre os Estados Unidos e a Europa e da ordem global do pós-Segunda Guerra Mundial, que tem se revelado cada vez mais frágil.



