Ataque ao Irã e postura de Trump impedirão consensos no G7 no Canadá
Cúpula começa nesta segunda (16), com conflito no Oriente Médio em foco e sem perspectiva de comunicado conjunto

Os líderes das principais potências globais se reúnem no Canadá, a partir desta segunda-feira (16), para a Cúpula do G7.
A reunião giraria em torno do primeiro encontro entre Donald Trump e a elite do mundo depois que o presidente americano assumiu a Casa Branca, declarando uma guerra tarifária e anunciando mudanças na posição de Washington sobre os conflitos externos.
Mas os ataques entre Israel e o Irã agora devem se sobrepor a qualquer outra discussão.
Se a postura beligerante de Trump já não permitiria um clima de comemoração no aniversário de 50 anos do G7, completados em 2025, agora o temor de uma guerra ampla no Oriente Médio deve tornar as conversas mais tensas.
O clima de paz das montanhas canadenses de Kananaskis, na província de Alberta, onde a cúpula vai acontecer, em nada representará os temas bélicos da reunião e a falta de consenso entre os líderes.
O grupo dos países mais industrializados do mundo não deve divulgar um comunicado conjunto, segundo uma autoridade canadense afirmou à agência de notícias Associated Press.
A Casa Branca também afirmou que declarações podem ser emitidas individualmente pelos líderes sobre os assuntos discutidos.
A falta de um comunicado decorre da complexidade de colocar Donald Trump na mesma página de outros líderes.
“Os líderes devem divulgar apenas uma espécie de sumário executivo, refletindo a divisão causada pela postura do Trump. Como evidenciou o comunicado da Casa Branca, haverá declarações isoladas de cada líder em temas como Ucrânia, Irã e tarifas”,
Nuances na condenação do Irã
A postura de Trump sobre o Irã deve ser um dos pontos de discordância entre os líderes. A reunião emergencial do Conselho de Segurança da ONU na sexta-feira (13) trouxe uma prévia.
Enquanto os EUA apoiaram os ataques israelenses, europeus mostraram uma postura mais ambígua.
A Carta das Nações Unidas, tratado firmado em 1945 após a Segunda Guerra Mundial, estabelece que um país só pode usar a força militar em legítima defesa, conforme prevê o Artigo 51.
Como a ação de Israel foi preventiva, uma condenação inequívoca seria esperada, mas os europeus evitaram críticas mais enfáticas aos ataques de Israel, apelando pela paz e criticando o programa nuclear iraniano.
Neste domingo (15), Trump publicou nas redes sociais uma mensagem afirmando que Irã e Israel podem chegar a um acordo.
“Irã e Israel deveriam chegar a um acordo, e chegarão a um acordo, assim como eu consegui que a Índia e o Paquistão chegassem, nesse caso usando o comércio com os Estados Unidos para trazer razão”, disse.
Os EUA negam envolvimento na ofensiva israelense, mas afirmam que foram avisados com antecedência sobre a operação. Israel já atacou programas de armas nucleares duas vezes antes, no Iraque, em 1981, e na Síria, em 2007.
Mas em ambas as ocasiões, os primeiros-ministros israelenses não avisaram o presidente americano.
Trump declarou total apoio à ação coordenada pelo primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e afirmou que os ataques podem forçar o Irã a negociar um acordo nuclear com os EUA.
A tentativa de forjar um novo tratado ocorre depois que o próprio presidente Trump se retirou em 2018 do acordo estabelecido em 2015 pelo governo Barack Obama.
“Talvez agora eles negociem seriamente”, disse Trump após os primeiros ataques, parabenizando Israel por usar o “excelente aparato americano”.
Trump tentou convencer Netanyahu a não realizar o ataque ao Irã nos últimos meses. Em prol de sua política de “America First”, de redução de envolvimentos em conflitos externos, o republicano buscava levar o Irã à mesa de negociações.
O presidente americano se sentiu confiante depois da trégua de janeiro em Gaza, intermediada pelo seu enviado especial Steve Wittkoff, um conhecido nome do mercado imobiliário de Nova York e amigo de Trump, mas um inexperiente negociador.
O republicano também falhou em sua promessa de campanha de encerrar a guerra na Ucrânia em 24 horas se fosse eleito.
Donald Trump acreditava que o seu “Art of the Deal” e sua experiência como incorporador em Manhattan seriam o suficiente para resolver conflitos complexos e subjugar aliados. Mas se deparou com uma conjuntura muito mais complexa do que aquela que envolvia suas empresas e o seu talk show “O Aprendiz”.
Em um cenário de aumento da tensão global, Trump se depara com a realidade das limitações diplomáticas. Cercado por negociadores que não conhecem os meandros das intrincadas relações internacionais, o desafio de encontrar soluções para os conflitos externos é ainda maior.
O G7, que já começa sem a previsão de um documento com uma visão convergente entre alguns dos países mais poderosos do mundo, pode amplificar ainda mais a sensação de que o mundo está caótico demais para as ambições de Trump.
Guerra tarifária
Trump chega ao G7 sob a nuvem da expressão “TACO — Trump Always Chickens Out”, em português “Trump sempre amarela”. Após diversos recuos, países colocaram em dúvida a capacidade de Washington de ir até o fim com a sua política tarifária.
O presidente americano ficou furioso com a expressão porque sabe que ela descredibiliza sua estratégia. Seu plano era impor tarifas impraticáveis, para provocar um susto inicial e conseguir mais vantagens na negociação, recuando depois. Mas se tudo não passa de um blefe, por que negociar?
Para além da descrença, a estratégia de Trump se mostrou fracassada por causa dos efeitos das tarifas sobre a própria economia americana.
Ao anunciar o tarifaço, no Liberation Day, em 2 de abril, os mercados desabaram e prognósticos de recessão dominaram o noticiário, forçando Trump a impor uma trégua de 90 dias.
Os líderes chegam ao G7 se sentindo menos ameaçados do que há dois meses. Se antes havia uma enorme cautela sobre as retaliações americanas, agora alguns já se sentem até mais confortáveis para expressar suas críticas.
O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, disse que os Estados Unidos não são mais a força predominante no mundo depois que as tarifas criaram rachas em uma parceria de décadas entre EUA e Canadá.
A França, que tem sido o único outro país mais vocal sobre Trump entre os líderes do G7, também já disse que os EUA não devem ditar o que os outros países devem fazer.
É esperado que alguns dos líderes tentem afagar o ego de Trump para não degradar ainda mais as relações comerciais com a maior economia do mundo, a depender do quanto podem ser afetados pelas retaliações americanas. Mas a intimidação do presidente americano perdeu força e pode ser menos eficaz nas discussões no Canadá.
Brasil no G7
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participará da cúpula do G7 a convite do primeiro-ministro canadense. Esta será a sua nona participação em encontros do grupo.
Fontes diplomáticas afirmam que o presidente brasileiro deve buscar mostrar em Kananaskis que conversa com russos e ucranianos, com países do Brics e também com a elite global. O objetivo do Itamaraty é reforçar que o Brasil é um país equilibrado, que conversa com todos os atores, depois das críticas recebidas pela visita de Lula ao presidente russo Vladimir Putin em maio.
Lula vai abordar sua preocupação com a escalada dos conflitos no Oriente Médio, conforme apuração da âncora Débora Bergamasco. O presidente vai salientar que não é possível falar em segurança energética sem tratar da paz no mundo. Lula não deve condenar diretamente Israel e Irã, conflito o será o pano de fundo de sua fala pública.
Até o momento está prevista oficialmente apenas uma reunião bilateral: com o primeiro-ministro Mark Carney, do Canadá, anfitrião do evento. Mas fontes afirmam que Lula também deve se reunir com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky.



