Crise Brasil-EUA gera debate interno sobre politização do Itamaraty
Vistos negados e defesa da soberania nacional são vistos como movimentos políticos por integrantes da diplomacia

As recentes negativas de vistos a membros do governo Trump e as declarações do Itamaraty em defesa da soberania nacional têm sido vistas por alguns diplomatas como uma politização da política externa brasileira.
A CNN conversou com integrantes da diplomacia que afirmaram jamais ter visto tamanha hostilidade de Brasília com Washington.
Uma das fontes avalia que os Estados Unidos sempre tiveram uma postura intervencionista na América Latina e lembra que Donald Trump e o secretário de Estado Marco Rubio não têm qualquer pudor em admitir isso abertamente. Mas a diferença é a forma como o Brasil está reagindo agora.
Se anteriormente a diplomacia brasileira respondia de forma mais pragmática, sem se envolver abertamente em disputas políticas, agora a postura mais ativa causa estranhamento entre alguns diplomatas.
Questionada sobre a demora na concessão do agrément de Daniel Perez — a aprovação formal do Brasil para que o indicado de Trump possa assumir o cargo de embaixador em Brasília —, uma fonte do Itamaraty respondeu que os EUA voltaram à postura de julho do ano passado “de ingerência e tentativa de intimidação”.
O interlocutor disse que o posicionamento do governo Trump não funcionou no ano passado e que neste ano a palavra está com o povo brasileiro, “que dirá se quer ser governado a partir de Washington ou se defende a soberania do Brasil diante de ataques tão grosseiros”.
A defesa da soberania nacional, discurso político que vem rendendo dividendos a Lula, tem sido evocada com mais frequência e mais ênfase agora também dentro do Itamaraty.
O Brasil não está sendo nada pragmático. Ao contrário, o governo como um todo, e o Itamaraty, estão escalando nitidamente o discurso de uma lógica mais pretensamente soberanista, com nítido interesse eleitoral, disse um diplomata.
Uma das fontes afirma que o governo brasileiro impedir a entrada de membros do governo dos Estados Unidos representa uma mudança significativa na postura do Itamaraty.
Ela lembra que o governo Biden também interveio diplomaticamente no debate brasileiro antes das eleições de 2022. Em julho daquele ano, o secretário de Defesa de Joe Biden, Lloyd Austin, se reuniu com o então ministro da Defesa de Jair Bolsonaro, Paulo Sérgio Nogueira, e falou sobre a expectativa americana de eleições livres, justas e transparentes. Austin também defendeu o controle civil sobre os militares e o respeito à vontade popular.
Mas, quando membros do governo Trump tentaram entrar no Brasil, seus vistos foram negados.
A primeira negativa aconteceu em março de 2026, quando o governo brasileiro revogou o visto diplomático de Darren Beattie, assessor do Departamento de Estado dos EUA. O Itamaraty afirmou que houve “omissão e falseamento de informações relevantes quanto ao motivo da visita”.
Beattie viajaria ao Brasil para participar de um fórum sobre minerais críticos e também pretendia visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro na prisão, mas encontro não havia sido informado às autoridades brasileiras.
O Itamaraty também negou vistos a dois funcionários do alto escalão do Departamento de Estado dos Estados Unidos: Riley Barnes, secretário-assistente no Escritório de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho (DRL), e Samuel Samson, secretário-assistente adjunto do mesmo escritório.
Segundo Lula, os dois pretendiam viajar ao Brasil “para se meter na eleição brasileira”. O Departamento de Estado negou essa versão e afirmou que se tratava de uma missão oficial de rotina para discutir democracia, direitos humanos e liberdade religiosa.
Os vistos foram negados para a viagem prevista entre 27 e 30 de julho, período que coincidia com a convenção nacional do PL, que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência. A Embaixada dos Estados Unidos havia informado ao governo brasileiro que os dois teriam um encontro com Flávio Bolsonaro durante a viagem. Não há, porém, confirmação pública de que eles participariam da convenção do PL.
Alguns diplomatas avaliam que o Itamaraty tem realizado uma política externa de governo e não de Estado.
Por outro lado, as fontes também ressaltam que os Estados Unidos não têm respeitado as regras da diplomacia em alguns casos. A divulgação da indicação de Daniel Pérez antes de o agrément ser concedido pelo Itamaraty, por exemplo, contraria a praxe diplomática de manter a consulta confidencial até a resposta do país que receberá o embaixador.
Um interlocutor lembrou que um agrément pode ser concedido em um dia se um país quiser fazer um afago ao outro, mas é comum a resposta demorar dois ou três meses. Portanto, a reação do governo Trump de revogar o visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti é vista por alguns como exagerada.
Já outros afirmam que a demora do governo brasileiro tem motivos eleitoreiros e visa reforçar o discurso da soberania nacional.
Em resposta às críticas feitas por diplomatas de dentro do governo, uma fonte do Itamaraty afirmou que, se a atual postura de defesa diante dos ataques dos Estados Unidos não tem precedentes, é porque “a truculência dos ataques, das ameaças e da agressão à democracia e à soberania também não têm precedentes”.
“Isso não é politização, é defesa do interesse nacional em tempos de conflito, no qual a administração Trump decidiu alinhar-se com os golpistas. A linha do tempo a partir de julho de 2025 é clara. Temos tentado a via da negociação há mais de um ano e, nos últimos meses, ficou claro que o outro lado não quer negociar, prefere atacar o Brasil na tentativa de impor sua vontade na eleição”, completou a fonte do Ministério das Relações Exteriores.



