Sem coletiva nem Trump e discurso lido: como Lula evitou polêmicas na ONU
Fontes do governo avaliam que estratégia permitiu ao presidente abordar temas internos e reforçar a soberania sem provocar confrontos com líderes estrangeiros

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez uma passagem curta por Nova York, com poucas reuniões e sem entrevistas coletivas.
A participação na Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) terminou sem polêmicas e foi comemorada por fontes do governo ouvidas pela CNN.
Na avaliação de um interlocutor, Lula conseguiu transmitir a imagem de um estadista experiente e enviar recados a líderes internacionais sem precisar citar nomes, como o de Donald Trump, e sem criticar diretamente os Estados Unidos.
Uma das fontes analisou que o presidente abordou a política doméstica sem passar do ponto.
As críticas à coerção e à “lei da selva” e a defesa de reformas de organismos multilaterais deram o tom da passagem de Lula.
Assim como adiantado no artigo publicado por Lula e líderes intencionais no jornal Financial Times no domingo (20), a mensagem foi de que as iniciativas de cooperação internacionais têm falhas e precisam mudar, mas não devem ser abandonadas.
A agenda também foi meticulosamente calculada para evitar situações que poderiam ser delicadas. Lula e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não se encontraram. O brasileiro também não se reuniu com Delcy Rodríguez, presidente interina da Venezuela, que havia solicitado um encontro com o Brasil.
Apesar de o governo ter afirmado que o presidente recebeu 30 convites para reuniões bilaterais, foram marcados apenas compromissos amigáveis. Lula se encontrou apenas com o presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, e o senador americano Bernie Sanders.
Lula também não realizou a tradicional coletiva de imprensa que encerra suas viagens — ainda que uma sala estivesse reservada para isso na ONU — e não conversou com jornalistas na saída dos compromissos, os chamados quebra-queixos.
Sem entrevistas à imprensa brasileira, o discurso na ONU acabou sendo o principal momento de exposição do presidente. O pronunciamento planejado há meses e modificado até a véspera foi lido “ipsis literis”, sem improvisos.
A imagem da primeira-dama Janja levando as mãos à testa em sinal de prece antes de Lula subir ao púlpito da ONU revela o tamanho da apreensão e da torcida para que não houvesse nenhum tropeço.
Uma fonte do governo afirma que o discurso era o foco da agenda e foi muito claro e contundente. O interlocutor também avalia que a fala representou uma afirmação do Brasil como um país relevante, atento à crise internacional e cioso da sua soberania.
Diplomatas já haviam antecipado à CNN que em ano de eleição a tribuna da Assembleia da ONU se transforma em palanque e que o grande objetivo de Lula era ganhar dividendos para a campanha. Com assuntos internos endereçados e a defesa da soberania reforçada, sem escorregões, fontes afirmam que o governo deu a passagem por Nova York como missão cumprida.



