Análise: EUA dobram compra de títulos e reprecificam mercados
Medida aumenta liquidez no mercado americano, enfraquece o dólar e impulsiona ativos de risco como ouro e Bitcoin

O Tesouro dos Estados Unidos anunciou, nesta quarta-feira (19), que vai dobrar o volume das operações de recompra de títulos de prazo mais longo, com vencimentos entre 10 e 20 anos e entre 20 e 30 anos. A decisão repercutiu nos mercados financeiros globais, com impactos sobre moedas, bolsas e ativos de risco ao redor do mundo.
Segundo Rita Mundim, a medida representa uma injeção significativa de liquidez na economia americana. “Se o Tesouro Americano vai recomprar títulos, ele vai colocar esse caminhão de dinheiro no mercado”, explicou.
Com mais recursos em circulação, a tendência é de enfraquecimento do dólar frente às principais moedas. O índice DXY, que mede o desempenho da moeda americana ante uma cesta de moedas, registrou queda de quase 1%.
Impactos no Brasil e nos mercados emergentes
A valorização do real frente ao dólar, com o câmbio recuando cerca de 0,93%, não estaria relacionada à política fiscal brasileira, segundo Mundim. “Não tem nada a ver com o Brasil, com política fiscal, com nada. Tem a ver com a decisão do Tesouro Americano de fazer essa recompra”, afirmou.
Com mais dólares disponíveis no sistema financeiro, parte dos recursos tende a migrar para mercados emergentes, bolsas e outros ativos de risco. Nesse cenário, o ouro voltou a ser negociado acima de US$ 4.500 por onça-troy, enquanto o Bitcoin também registrou alta expressiva.
Mundim explicou ainda que a recompra de títulos pelo Tesouro americano busca conter a alta das taxas de juros de longo prazo, que haviam atingido 5,24% na véspera. Quando há excesso de vendedores de títulos, os preços dos papéis caem e, consequentemente, as taxas sobem.
Segundo ela, esse movimento vem ocorrendo desde o início do ano, em meio à redução de posições em ativos americanos por países asiáticos e outros investidores globais, diante das incertezas provocadas pelas políticas comerciais do governo Trump. “Desde que o Trump assumiu, o nome da política americana é incerteza”, disse.
Dívida americana e pressão inflacionária
Por trás da decisão está também o avanço da dívida pública dos Estados Unidos, que atualmente soma US$ 40 trilhões, após um crescimento de US$ 3,2 trilhões nos últimos 12 meses. Quanto maior o endividamento, maior tende a ser o custo de financiamento, o que aumenta a pressão sobre as taxas de juros.
Mundim destacou que os Estados Unidos passaram a enfrentar esse desafio com maior intensidade. No cenário global, os bancos centrais também precisam lidar com o aumento das dívidas soberanas, agravadas desde a pandemia, ao mesmo tempo em que enfrentam um novo choque inflacionário provocado pela alta dos preços da energia.
O aumento das cotações do petróleo, do diesel e de outros combustíveis pode se espalhar pela cadeia produtiva, afetando setores como petroquímica, fertilizantes e commodities agrícolas.
No Brasil, o impacto direto sobre os combustíveis é parcialmente amortecido por subsídios governamentais e pelo uso do etanol, mas os efeitos indiretos já começam a aparecer em diferentes segmentos da economia.
“O Brasil, como é um grande produtor e exportador de commodities, principalmente alimentos, nós sofremos bem menos por enquanto”, concluiu Rita Mundim.



