Luciana Franco
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Luciana Franco

É editora adjunta da CNN Agro. Foi repórter na Gazeta Mercantil, editora da Globo Rural e colaboradora do Valor Econômico; premiada pelo The Washington Post.

Safra global de açúcar entra em fase decisiva 

Apesar da projeção de déficit de 800 mil toneladas na safra 2025/2026, preços internacionais seguem pressionados

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O mercado mundial de açúcar deve registrar um novo déficit na safra 2025/26, em meio a revisões negativas de produção na Índia, Tailândia e União Europeia, segundo projeções apresentadas pela Datagro. Com isso, o ciclo 2025/2026 deve encerrar com déficit global de aproximadamente 800 mil toneladas, em equivalente açúcar bruto, considerando a normalização sazonal da produção e do consumo em 122 países. Para 2026/27, a estimativa é de um desequilíbrio ainda maior, de cerca de 2,68 milhões de toneladas. 

Apesar do cenário mais apertado no balanço mundial, os preços internacionais seguem pressionados, alimentados especialmente pelo aumento da produção na Índia e na Tailândia; pela evolução positiva, ainda que modesta, na América Central; pelo arrefecimento da demanda no mercado físico e pela ampliação recorde de posições vendidas por fundos especulativos.  

Com isso, o contrato futuro do açúcar bruto em Nova York vem operando ao redor de 14 centavos de dólar por libra-peso, após meses de forte pressão. Por outro lado, outros fatores vêm limitando novas quedas: expectativa de redução dos estoques no Brasil, um mix mais alcooleiro no Centro-Sul na próxima safra e produção indiana abaixo do inicialmente previsto. 

Convertido em reais, o preço do açúcar bruto recuou para cerca de R$ 1.700 por tonelada, 37,5% abaixo do nível de 12 meses atrás e o menor valor desde dezembro de 2020. O patamar já está abaixo do custo médio de produção no Centro-Sul. 

Fundamentos para a queda 

Um dos pontos centrais da análise da Datagro é a revisão para baixo da produção indiana. A moagem acelerada, aliada a produtividade menor que o esperado e florescimento em áreas de Maharashtra, antecipou o encerramento da safra. 

Com isso, as estimativas para 2025/2026 caíram de 32,1 milhões para 30 milhões de toneladas. Em Maharashtra, a previsão foi reduzida de 11,5 para 10,2 milhões de toneladas, com queda de produtividade de 85 para 78 toneladas por hectare. 

Para 2026/27, o risco adicional está nas chuvas de monção, possivelmente impactadas por um evento de El Niño a partir de julho. 

Na Tailândia, a produção de 2025/2026 foi revisada de 11,16 para 10,58 milhões de toneladas. Para 2026/2027, a estimativa aponta queda adicional para 9,72 milhões, diante da menor rentabilidade da cana frente à mandioca. 

Na União Europeia, a produção deve recuar de 16,56 milhões (2024/2025) para 15,72 milhões (2025/2026) e pode cair para 14,1 milhões em 2026/2027, com redução de 7% a 8% na área plantada — a menor em 45 anos. 

Produção brasileira de açúcar 

No Centro-Sul, a safra 2025/2026 de cana de açúcar deve encerrar com moagem de 610,5 milhões de toneladas e produção de 40,77 milhões de toneladas de açúcar — praticamente estável em relação ao ciclo anterior. 

Para 2026/2027, a Datagro projeta aumento da moagem para 635 milhões de toneladas, mas com mix menos açucareiro (que cairá de 50,7% para 48,5%), mantendo a produção em torno de 40,7 milhões de toneladas. 

A safra do Norte e Nordeste deve cair para cerca de 3 milhões de toneladas, em comparação com as 3,8 milhões de toneladas do ciclo anterior, refletindo menor produtividade e mix, também, menos favorável ao açúcar.