Análise: Sem Michelle, Flávio arrisca voto feminino
Postura de ex-primeira-dama impõe desafio ao PL e à campanha do senador

As consequências da saída de Michelle Bolsonaro (PL) da presidência do PL Mulher estão longe de ser apenas um machucado no PL e na trajetória da ex-primeira-dama dentro do partido do marido, Jair Bolsonaro.
A decisão pode ser vista como mais um claro ao enteado Flávio Bolsonaro e coloca em xeque a busca do pré-candidato à Presidência pelo apoio feminino. Levantamentos recentes mostram o senador com dificuldade para conquistar o voto das mulheres, que representam mais da metade do eleitorado.
Pesquisa Genial/Quaest divulgada neste mês mostrou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 41% das intenções de voto nesse segmento; Flávio aparece com 24%.
Até a semana passada, Michelle era tratada pelo bolsonarismo como um dos principais ativos da legenda para aproximar Flávio do público feminino. Agora, tudo está em suspenso.
Aliados da ex-primeira-dama veem a situação como irreversível. Para além do passado, Michelle tem demonstrado incômodo com a repercussão da bomba que estourou.
Os pedidos de desculpas são considerados insuficientes e até mesmo o silêncio sobre o que disse o bolsonarista Paulo Figueiredo tem gerado novos ruídos.
Lideranças femininas do partido esperavam algum tipo de manifestação pública de Flávio após o influenciador – braço direito de Eduardo e articulador do bolsonarismo nos EUA – dizer que “mulher não vota muito mal, mulher vota mal para caralho”.
A grande dúvida agora é o que Michelle fará sem estar amarrada ao núcleo familiar e político dos Bolsonaro. A nota de Michelle ao deixar o PL Mulher abre margem para interpretações.
A ex-primeira-dama disse a pessoas próximas que cogita deixar a política e que seu foco é cuidar da saúde de Bolsonaro.
A ex-primeira-dama, no entanto, menciona no texto divulgado nesta terça-feira (30) “sementes lançadas” e “um grande exército de mulheres de bem”, o que acabou sendo lido por aliados de Flávio como um sinal de que a atuação da ex-primeira-dama na política não acabou por aqui.
Sem ocupar uma posição institucional no PL, Michelle deixa dúvidas sobre como usará, a três meses da eleição, a liberdade que tem agora para atuar politicamente, com sua própria rede de candidatas.
Aversa a entrevistas, Michelle até pouco tempo restringia-se a sorrir e a acenar às câmeras. Agora, Michelle cria um cenário de oportunidade para trilhar um caminho independente.
A dúvida que percorre os corredores de Brasília neste momento é se Michelle, de fato, vestirá o uniforme da boa esposa e sairá de cena ou investirá no seu próprio “exército” para formar um grupo paralelo dentro do bolsonarismo. A ver os próximos capítulos.



