Análise: Dino dá xeque-mate em Fachin e atravessa AGU
Ministro expõe fragilidade da Presidência e esvazia parte da reação institucional

Ao reintegrar a cúpula da Polícia Federal, Flávio Dino deu uma espécie de xeque-mate em Edson Fachin. Em menos de 24 horas, o ministro puxou para si a responsabilidade sobre uma crise que o presidente do Supremo esperava solucionar com prazos.
Dino não esperou e restabeleceu sozinho o retorno do Diretor-Geral da PF, Andrei Rodrigues, e do Diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada, aos respectivos cargos.
Desde que assumiu a Presidência, Fachin busca, sem sucesso, construir uma agenda própria. Ao agir sem consultar a cúpula do Supremo, Dino expôs a dificuldade de Fachin para exercer poder sobre a Corte.
Sem apoio, isolado, com nenhum grupo para chamar de “seu”, Fachin é alvo constante de críticas e atropelos. O decano do Supremo, ministro Gilmar Mendes, em entrevistas recentes, acusou o colega de falta de diálogo na construção e trouxe avaliações de ministros de que a Corte estaria como uma “nau à deriva”.
A crise entre Mendonça, Moraes e a Polícia Federal oferecia a Fachin a oportunidade de recuperar autoridade. Agora, se e quando Fachin decidir sobre o pedido da AGU, a cúpula da PF já estará reintegrada.
Além de enfraquecer o presidente do Supremo, a decisão de Dino atravessa a AGU, que construiu uma estratégia de defender as prerrogativas da Presidência da República, após um dia inteiro de reuniões no Planalto.
A ação individual apresentada por Andrei é considerada pela AGU uma iniciativa pessoal, mas dificilmente passou sem o consentimento do chefe, o presidente Lula.
Com Dino, Fachin está novamente pressionado a agir, mas, em qualquer hipótese, chegará depois e será notícia velha.
Com a decisão desta quarta, Dino revela que, no momento mais grave da crise, o poder do Supremo não está concentrado na Presidência, mas disperso entre ministros.



