Lula calibra discurso para defender cooperação internacional
Presidente consulta ministros após anúncio dos EUA

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem consultado ministros e auxiliares próximos para calibrar a reação do governo à decisão dos Estados Unidos de classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas.
A tendência é que Lula adote um discurso combinado sobre defesa da soberania nacional e a necessidade de ampliar a cooperação internacional no combate ao crime organizado transnacional.
No Palácio do Planalto, auxiliares acreditam que ainda será preciso evitar a imagem de complacência com a atuação de grupos criminosos, como pretende reforçar o discurso da oposição.
Ao mesmo tempo, Lula precisa se contrapor à medida de Trump, por considerá-la um tipo de interferência externa em assuntos competentes às autoridades brasileiras.
Nesse contexto, auxiliares do presidente afirmam que Lula pretende resgatar um argumento que vem sendo apresentado pelo governo desde o início das discussões com Washington, de que Brasil e Estados Unidos já possuem instrumentos suficientes para atuar conjuntamente contra facções criminosas sem a necessidade de enquadrá-las como organizações terroristas.
A cooperação em segurança pública foi, inclusive, um dos temas levados pelo presidente brasileiro ao encontro com Donald Trump, em maio. Na ocasião, Lula apresentou uma proposta de atuação conjunta envolvendo troca de informações de inteligência, combate à lavagem de dinheiro, enfrentamento ao tráfico de armas e rastreamento de recursos utilizados por organizações criminosas.
Nos bastidores, a leitura é que a decisão anunciada pelos Estados Unidos reforça a necessidade de o governo brasileiro defender publicamente a estratégia que vinha sendo construída antes mesmo do encontro entre os dois presidentes.
Entre as preocupações manifestadas dentro do governo sobre a medida anunciada pelos americanos estão possíveis impactos sobre o sistema financeiro e sobre operações internacionais envolvendo empresas e instituições brasileiras. Integrantes do Planalto citam experiências observadas em outros países da América Latina, especialmente no México, para sustentar o argumento de que medidas adotadas sob legislações antiterrorismo podem gerar reflexos econômicos e regulatórios além do combate ao crime.
Até agora, o presidente ainda não se manifestou sobre a decisão do Trump. Com exceção de poucos auxiliares e parlamentares, a decisão interna no Planalto é de evitar exposição sem antes alinhar o discurso.



