Teo Cury
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Explica o que está em jogo, descomplica o juridiquês e revela bastidores dos tribunais e da política em Brasília. Passou por Estadão, Veja e Poder360

“Estamos preparados para novas ações”, diz embaixador do Irã à CNN

Abdollah Nekounam Ghadirli afirmou que é incerto dizer se cessar-fogo continuará porque, em sua avaliação, Israel e Estados Unidos têm histórico de "violação de compromissos”

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O embaixador do Irã no Brasil, Abdollah Nekounam Ghadirli, afirmou, em entrevista à CNN, que, apesar do anúncio do cessar-fogo com Israel no conflito que durava 12 dias, o país está “completamente” preparado para qualquer nova ação que possa eventualmente se fazer necessária.

“Apesar de termos encerrado nossas operações, estamos completamente preparados para qualquer nova ação, com base em uma total desconfiança”, disse o embaixador em entrevista na terça-feira (24). As respostas do diplomata foram dadas em farsi e traduzidas pelo intérprete da embaixada.

“Porque o lado oposto [Israel], sob suas próprias pressões e dificuldades internas, foi forçado a interromper as operações. No entanto, se essa interrupção continuará ou não, é algo incerto — especialmente porque estamos lidando com partes [Estados Unidos e Israel] que têm um histórico evidente de violação de compromissos”, afirmou.

O embaixador iraniano classifica como “covarde” e "hostil" a ofensiva norte-americana e israelense e sustenta que a ação foi tomada no sentido contrário às leis internacionais, aos direitos humanos e aos princípios humanitários.

Leia, a seguir, a íntegra da entrevista:

CNN: Embaixador, passados 12 dias de combate, o conflito com Israel chegou ao fim nesta terça-feira. Que balanço o senhor faz dessas duas semanas?

Abdollah Nekounam Ghadirli: A resposta a esta pergunta deve ser dirigida àqueles que, com planejamento prévio, executaram este ataque hostil — uma ação que está claramente em contradição com as leis internacionais, os direitos humanos e os princípios humanitários.

Com quais objetivos realizaram essa ação? E realmente alcançaram seus objetivos? Essas são perguntas que devem ser dirigidas às partes adversárias.

Mas, em resposta a você, deve-se dizer: as partes adversárias, de maneira covarde, sem que o povo iraniano estivesse ciente do início de qualquer guerra, iniciaram um ataque surpresa e desleal contra o povo do Irã.

Eles, no momento em que as pessoas estavam em suas casas descansando, às 3h30 da madrugada, começaram seus ataques contra residências, e, infelizmente, assassinaram um grupo de nossos cientistas junto com suas famílias e filhos pequenos.

CNN: Um personagem que teve papel de destaque foi o presidente americano, Donald Trump. Após pressão dele, o cessar-fogo foi alcançado nesta terça. Qual a avaliação do senhor sobre o papel de Trump? O Irã confia nele?

Ghadirli: Quanto ao cessar-fogo, permita-me acrescentar um ponto: na verdade, o regime sionista e seus apoiadores foram forçados a interromper a operação militar.

Eles receberam uma resposta firme por parte do Irã nos últimos 12 dias e não tiveram outra escolha a não ser solicitar o fim da guerra. Naturalmente, decidiram recuar dessa ação hostil e encerrar a guerra. Nós também decidimos encerrar nossa operação militar.

Contudo, isso de forma alguma significa que confiamos nas partes adversárias. As partes adversárias, em diversas ocasiões, mostraram repetidas vezes que são infratoras de compromissos e que não se pode confiar em seus compromissos.

O senhor se refere a Israel e aos Estados Unidos.

Sim, exatamente assim.

CNN: Os últimos 12 dias de conflito e mais de 600 iranianos mortos reforçam a ideia defendida por muitos de que é necessária a construção de uma bomba?

Ghadirli: Nenhum país alcançou segurança por meio do armamento nuclear. O exemplo claro disso é o regime sionista. Apesar de possuir mais de 70 ogivas nucleares, vive em condições completamente inseguras. A República Islâmica do Irã obtém sua segurança por meio do povo e de seu apoio.

CNN: Parte do governo israelense e o próprio presidente Trump gostariam de uma mudança de regime. Trump mesmo mencionou isso e depois voltou atrás. Israel diz que a campanha contra o Irã não acabou e que não conseguiu alcançar todos os seus objetivos. É possível confiar no cessar-fogo e que Israel não vai voltar a atacar?

Ghadirli: A campanha de confronto com o sistema da República Islâmica do Irã começou desde as primeiras horas da vitória da Revolução Islâmica, na década de 1970. Isso não é algo novo para nós.

Se observarmos os últimos 46 anos e os acontecimentos nas relações entre Irã e Estados Unidos, veremos que o lado americano continuamente praticou ações contra o Irã, porque a Revolução Islâmica do Irã é uma revolução que emergiu do povo e se baseia na independência política — e isso era intolerável para os Estados Unidos, especialmente considerando que, antes da revolução, havia no Irã um regime completamente subordinado aos Estados Unidos e alinhado com suas políticas.

Por esse motivo, desde o momento da vitória da Revolução Islâmica, eles não interromperam nem por um segundo a luta contra ela e trilharam o caminho para mudar o regime. Mas jamais tiveram sucesso nesse caminho, porque a Revolução Islâmica do Irã é uma revolução oriunda do povo iraniana.

CNN: Como o senhor projeta as próximas semanas e os próximos meses levando em consideração a conclusão do conflito?

Ghadirli: Remeto você à declaração do Conselho Supremo de Segurança Nacional da República Islâmica do Irã, publicada após o anúncio da interrupção dos ataques do regime sionista.

Nessa declaração, é claramente afirmado que, apesar de termos encerrado nossas operações, estamos completamente preparados para qualquer nova ação, com base em uma total desconfiança. Porque o lado oposto, sob suas próprias pressões e dificuldades internas, foi forçado a interromper as operações.

No entanto, se essa interrupção continuará ou não, é algo incerto — especialmente porque estamos lidando com partes que têm um histórico evidente de violação de compromissos.

Claro, do lado iraniano, a República Islâmica sempre foi um país que, se se comprometer com algo, cumpre fielmente seus compromissos. Isso pode ser observado na história das relações exteriores do Irã em diversos assuntos.

Também é importante observar que o dia do ataque do regime sionista ao Irã foi 13 de junho, e apenas dois dias depois, em 15 de junho, estava prevista a realização da sexta rodada de negociações indiretas entre Irã e Estados Unidos.

Além disso, no dia 22 de junho, data em que nossas instalações nucleares pacíficas foram atacadas, o ministro das Relações Exteriores da República Islâmica do Irã estava em Genebra, em conversações com três países europeus.

Isso é uma evidência clara de que a República Islâmica do Irã, apesar de todo seu poderio militar, sempre adotou a diplomacia como principal abordagem.

CNN: Israel informou que a campanha contra o Irã não acabou, mas que o foco volta para a Faixa de Gaza. Como o Irã vê os próximos passos do conflito entre Israel e Hamas?

Ghadirli: O regime sionista demonstrou que não precisa de nenhum pretexto para massacrar pessoas indefesas em Gaza e aqueles que são os verdadeiros proprietários da terra da Palestina, e há anos continua com esse massacre sob qualquer justificativa. Isso não é algo novo.

Mesmo durante os ataques contra a República Islâmica do Irã, jamais cessaram os atos de agressão, tortura e pressão contra o povo de Gaza.

A situação das crianças, em termos de alimentação e condições sanitárias, em Gaza e nos territórios ocupados, é uma prova dolorosa dessa realidade.

CNN: O senhor gostaria de acrescentar algo a respeito de como viu o conflito e o que esperar daqui para frente?

Ghadirli: Por fim, considero necessário agradecer à mídia e aos ativistas políticos no Brasil pelo cuidado especial que demonstraram nos últimos dias com relação ao tema dos ataques militares do regime sionista contra meu país — especialmente por não terem permitido que esse assunto tão importante, que possui dimensões humanas e de direito internacional, fosse transformado em instrumento de disputa política interna no Brasil.

Devemos parabenizar os ativistas políticos no Brasil, pois, com inteligência política, compreenderam que, se temas importantes como questões humanitárias e de direito internacional forem transformados em temas de disputa interna, isso terá consequências extremamente perigosas e enviará mensagens erradas aos que violam os direitos humanos e o direito internacional.

As questões relacionadas às relações humanas e ao direito internacional estão num nível muito superior às disputas políticas internas dos países. E essas não são questões relacionadas a posições políticas, religiosas ou à nacionalidade dos países — são assuntos universais, pertencentes a toda a humanidade.