Análise: A liquidação da Reag e o limite do tolerável no sistema financeiro
Mesmo sem impacto sistêmico em termos de ativos, a permanência da Reag no Sistema Financeiro Nacional representava risco qualitativo inaceitável

A decisão do Banco Central de decretar a liquidação extrajududicial da Reag Trust, rebatizada recentemente de CBSF, marca um ponto relevante na atuação da supervisão bancária no Brasil. Não pelo tamanho do fundo, irrelevante do ponto de vista sistêmico, mas pela natureza das irregularidades que foram identificadas e pelo sinal institucional que o regulador decidiu emitir.
O Banco Central foi direto. Houve graves violações às normas que regem o funcionamento das instituições do Sistema Financeiro Nacional. A liquidação não decorre de dificuldades de liquidez, caso do Master, nem de um erro isolado de gestão. Trata-se de falhas estruturais incompatíveis com os requisitos mínimos de integridade exigidos e que mantem o sistema brasileiro sólido e saudável para milhões de correntistas e investidores.
Na prática, o BC afirma que a Reag descumpriu pilares centrais da regulação prudencial como gerenciamento de riscos, compliance, auditoria interna e prevenção à lavagem de dinheiro. Esses não são fatores acessórios, são a base da confiança no sistema financeiro. Quando falham de forma sistêmica, o problema deixa de ser privado e passa a ser público.
A decisão do Banco Central também não ocorre no vácuo. A Reag já havia sido alvo da Polícia Federal na Operação Carbono Oculto, que apura um amplo esquema de lavagem de dinheiro, com suspeitas de vínculos com organizações criminosas.
A liquidação, portanto, é vai além da questão regulatória. Mesmo sem impacto sistêmico em termos de ativos, a permanência da Reag representava risco qualitativo inaceitável. O sistema convive com riscos econômico e financeiros, mas sucumbe à corrosão dos seus mecanismos básicos de controle. E mais ainda quando o crime passa a ser o modelo de negócios.



