
Análise: O túnel saiu, mas a polarização continua a céu aberto
A ausência do presidente Lula no leilão que terminou com a concessão do túnel Santos-Guarujá teve motivação política
Demorou quase um século para finalmente sair do papel o projeto do túnel que vai ligar Santos ao Guarujá, no litoral de São Paulo. Trata-se de um antigo sonho da engenharia brasileira e, ao mesmo tempo, de um gargalo histórico para a mobilidade entre as duas cidades — região onde também está localizado o maior porto do país, responsável por cerca de um terço da balança comercial brasileira.
O leilão que definiu a empresa responsável pela construção e operação da obra foi realizado na Bolsa de Valores, símbolo do mercado financeiro, e teve como vencedora uma empresa portuguesa em consórcio com chineses. O evento, no entanto, ocorreu sem a presença do presidente Lula (PT).
A ausência do presidente teve motivação política. O túnel submerso, de altíssima complexidade técnica, será construído por meio de uma parceria entre o governo federal e o governo do estado de São Paulo, com ambos dividindo os custos e, naturalmente, os dividendos políticos da obra.
Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos), atual governador de São Paulo e nome de confiança da direita, do setor privado e do mercado financeiro, aproveitou o momento para reforçar seu posicionamento como a melhor opção dentro do campo bolsonarista. Nesse contexto, uma foto de Lula e Tarcísio juntos, especialmente na sede simbólica do mercado financeiro, não seria politicamente conveniente para nenhum dos dois lados.
O fato de essa obra ter levado quase cem anos para ser viabilizada, somado à baixa concorrência no leilão do túnel, escancara uma realidade brasileira: já era extremamente difícil avançar na melhoria da infraestrutura nacional mesmo em tempos de ambiente político minimamente civilizado.
Portanto, é importante não se iludir achando que a parceria no projeto do túnel entre Santos e Guarujá representa um sinal de que a polarização política será superada em nome do interesse do país. Essa transformação pode, infelizmente, demorar muito mais de cem anos para acontecer.



