O Brasil está sofrendo um “ataque especulativo”?
Toda vez que sofremos aguda desvalorização cambial esse termo ressurge, e cabe agora entender sua função em termos de uma análise econômica objetiva como seu uso político subjetivo
O termo “ataque especulativo” voltou a rondar o debate sobre o que está acontecendo com os mercados. Muitos nas redes sociais – e na mídia – alegam que a tal “Faria Lima” estaria propositalmente “atacando” as políticas de um governo democraticamente eleito, descolando os preços da “realidade” dos fundamentos econômicos.
Toda vez que sofremos aguda desvalorização cambial esse termo ressurge, e cabe agora entender sua função em termos de uma análise econômica objetiva como seu uso político subjetivo.
O termo “ataque especulativo” ganhou uso para discutir movimentos de venda de moedas regimes cambiais fixos quando a paridade era vista como descolada dos fundamentos, e, portanto, insustentável.
O caso clássico seria um governo tentando defender uma moeda sobrevalorizada com juros altíssimos que estariam derrubando a atividade econômica. Isso é uma boa descrição do que o Brasil sofreu em 1997-1998 antes da desvalorização e flutuação do real em 1999.
Alguns economistas então alegam que não pode ocorrer um ataque especulativo em regime de flutuação livre da moeda, como é o caso atual.
Eu tenho simpatia por esse uso mais restrito do termo, porque se não fica muito difícil distinguir o que seria um “ataque” e o que seria o mero, corriqueiro e essencial função dos mercados financeiros: a precificação hoje dos fundamentos futuros.
Mas também tenho simpatia pela ideia de que o que acontece em momentos, feito o atual, é longe de corriqueiro ou normal, especialmente dado a fortíssima volatilidade nos preços.
Então por que tanta volatilidade? Afinal, nosso déficit primário fiscal – ao redor de 0,5% - não parece explosivo, e as medidas anunciadas vão na direção correta, até se não sendo o suficiente para garantir a plena estabilidade fiscal.
Essa pergunta não tem uma resposta óbvia. Eu pessoalmente achava que o governo ia entregar mais do que entregou com o atual “pacotinho”, mas também não achava que ia prover uma plena sustentação do arcabouço fiscal. Eu também não achava que o mercado tinha expectativas muito diferentes das minhas.
Mas além do desapontamento com o "pacotinho" eu acredito que muito do atual pânico tem a ver com a impressão de que não haverá mais medidas de ajuste fiscal durante o resto deste governo.
O anúncio conjunto das medidas com a fiscalmente arriscadas mudanças na tabela do imposto de renda sinalizou risco de mais estímulos fiscais, e não menos. E se isso de fato for verdade, aí o que sobra é uma forte alta na trajetória dívida/PIB nos próximos anos, uma alta perigosa dado o já altíssimo tamanho do nosso endividamento e a igualmente altas taxas de juros.
Assim, não foi tanto que o “pacotinho” foi uma grande decepção, mas sim o aparente sinal político que não era para esperar por mais nada na questão fiscal até 2027.
Agora isso é uma impressão, e como tal pode ser desfeita pelo governo. E isso nos traz ao uso político do termo “ataque especulativo”.
O termo tem valência negativa: estamos “sobre ataque” de “especuladores”.
O governo – ou mais especificamente o presidente, que é quem realmente importa – abraça muitas vezes esse discurso beligerante. E enquanto esse “nós contra eles” pode ter óbvia função política, a realidade é que o mesmo governo que ataca esses “especuladores” os chama semanalmente para rolar a dívida do Tesouro Nacional.
Assim, o pânico atual tem essas duas vertentes: uma falta de perspectiva de um ajuste fiscal estrutural até pelo menos 2027, e o temor que o discurso beligerante (usando termos como “ataque especulativo”) sinaliza o risco adicional de decisões para impor o custo do ajuste sobre os investidores, principalmente via inflação ou, no limite, como alguns já estão argumentando nas redes sociais, medidas de repressão financeira (como a centralização do mercado de câmbio).
Mas como eu disse, isso são impressões e elas podem ser desfeitas pelo governo. Mas isso vai precisar de ação rápida e coragem política, porque vai aparecer para alguns uma admissão de erro por parte do governo.
Se não, e ninguém deveria ter dúvidas sobre isso, a crise atual pode desencadear uma recessão, o que não seria bom para ninguém: governo, povo ou investidores.
Acredito que o novo presidente do Banco Central pode e deve fazer esse choque de realidade dentro do governo. Afinal, sua maior qualificação para o cargo é exatamente a capacidade de interlocução com o Planalto. O Banco Central é a instância de Estado mais próximo dos mercados. Está na hora de agir.



