Análise: A lufada de institucionalidade do Banco Central e do Fed
Autoridades monetárias são alternativa segura a discussões populistas e políticas agressivas à racionalidade e sistemas de pesos e contrapesos

Nome fundamental da literatura sobre política monetária, o ensaísta e economista inglês Walter Bagehot (1826–1877) dissertou sobre a altivez dos bancos centrais em manterem-se sóbrios e cautelosos: “A aventura é a essência do comércio, mas a cautela, ou quase a timidez, é a essência da atividade bancária”, escreveu ele.
A sutileza do condão da política monetária mora na confiança intrínseca ao seu maestro — o Banco Central.
Nesta quarta-feira (17), o Banco Central do Brasil e o Federal Reserve, nos Estados Unidos, definiram as tendências de suas condições da política monetária.
Sob a mira verbal do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Jerome Powell mostrou tanta sobriedade sobre a decisão do Fed que confundiu os mercados.
Ele descreveu o corte de 0,25 ponto como um ajuste prudente, calculado, para lidar com o descompasso de riscos inflacionários e um mercado de trabalho em desaquecimento — e deixou claro que não houve apoio para um corte mais agressivo de 0,5 ponto, como votou Stephen Miran, conselheiro econômico da Casa Branca e recém-empossado diretor do Fed.
Por lá, até o não dito provocou calmaria: os votos de dois diretores do Fed indicados por Trump em linha com os pares indicados por Joe Biden mostram coerência técnica e uma descontaminação dos petardos de Trump na condução da política monetária.
Sutileza até nos detalhes: Powell, de gravata roxa, indicando não ser republicano ou democrata, evitou falar sobre o ataque institucional de Trump ao tentar demitir Lisa Cook do Fed, tampouco sobre suas leituras sobre o penhor da credibilidade monetária nos Estados Unidos ser colocada em xeque ao fim de seu mandato — em maio do ano que vem.
No Brasil, de forma menos agressiva do que acostumou-se a ouvir de suas falas contra a condução de Roberto Campos Neto à frente do Banco Central, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reiterou há poucos dias: o único dado ruim da economia brasileira seria, na visão do presidente, a elevadíssima taxa de juros atual.
Esse contraste entre a sobriedade que se exige de um banco central e a instabilidade que se vê no ambiente político ganha contornos ainda mais agudos.
Enquanto a autoridade monetária precisa operar com técnica e discrição, o Congresso Nacional se ocupa de projetos que corroem a institucionalidade, como a anistias a descumpridores da lei, a chamada PEC da Blindagem e outros excessos legislativos cujo efeito é desidratar o sistema de pesos e contrapesos.
“O ambiente externo se mantém incerto em função da conjuntura e da política econômica nos Estados Unidos. Consequentemente, o comportamento e a volatilidade de diferentes classes de ativos têm sido afetados, com reflexos nas condições financeiras globais. Tal cenário exige particular cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por tensão geopolítica”, afirma o Comitê de Política Monetária.
“Em relação ao cenário doméstico, o conjunto dos indicadores de atividade econômica segue apresentando, conforme esperado, certa moderação no crescimento, mas o mercado de trabalho ainda mostra dinamismo. Nas divulgações mais recentes, a inflação cheia e as medidas subjacentes mantiveram-se acima da meta para a inflação”, diz o comunicado do Copom.
“O Comitê segue acompanhando os anúncios referentes à imposição de tarifas comerciais pelos EUA ao Brasil, e como os desenvolvimentos da política fiscal doméstica impactam a política monetária e os ativos financeiros, reforçando a postura de cautela em cenário de maior incerteza”, afirma o Banco Central.
Ainda sem deixar claro quando — muito pelo contrário, sendo bem duro em seu comunicado —, o Banco Central do Brasil vai cortar os juros. Quando der. A busca continua sendo pelo centro da meta de inflação, de 3% e o Banco Central busca comunicar esse cenário de forma bem clara e enfática.
“O Comitê seguirá vigilante, avaliando se a manutenção do nível corrente da taxa de juros por período bastante prolongado é suficiente para assegurar a convergência da inflação à meta”, diz o comunicado. “O Comitê enfatiza que os passos futuros da política monetária poderão ser ajustados e que não hesitará em retomar o ciclo de ajuste caso julgue apropriado”, afirma ainda o posicionamento oficial.
A decisão do Copom, sob a presidência do indicado por Lula, Gabriel Galipolo, foi unânime. Todos os nove membros votaram pela mesma decisão.
Nos Estados Unidos, a racionalidade sobre como ler o atual cenário econômico e seus desafios se sobrepõem à irracionalidade das tarifas de Donald Trump, suas consequências e, mais do que isso, premissas tão firmes quanto a convicção do presidente.
Adversidades à parte, os bancos centrais mostram que trabalham com o cenário que há; não os idealizados.
O patamar restritivo dos juros, especialmente no Brasil, é verdade, é nocivo para a dinâmica econômica — mas juros são consequência; não causa.
Seja aqui, seja lá, a política monetária não é espetáculo pirotécnico, mas teatro de sombras, onde a discrição e a sobriedade valem mais que discursos altissonantes. A verdadeira coragem de um banco central está em parecer tímido. E ignorar a beligerância deselegante na qual o populismo insiste.



