Victor Irajá
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Victor Irajá

Com passagens por Estadão e rádio CBN, foi editor do Radar Econômico, da revista Veja. É especializado em Economia pela FGV e pelo Insper

Análise: Para Lula e Haddad, existe uma “banda” para a realidade

Governo ignora metas, de inflação e fiscais e transforma conceitos em simulações dos fatos

Haddad e Lula conversam durante evento no Palácio do Planalto  • 01/07/2025REUTERS/Adriano Machado
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O conceito de simulacro, para o sociólogo Jean Baudrillard (1929-2007), é a representação que rompe o elo com aquilo que essencialmente uma determinada figura deveria representar e passa a existir por conta própria, como se, ironicamente, fosse mais real que o real.

Para ele, existe um estágio em que imagens, discursos e narrativas deixam de espelhar o mundo e começam a substituí-lo, criando um ambiente em que a referência original desaparece e só resta a cópia — não como falsificação, mas como nova realidade.

Nesse processo, o real perde densidade e o simulacro, ele, sim, ocupa todos os espaços, percepções, molda comportamentos e redefine o que é tomado como verdade.

Neste contexto, as metas e projeções do governo de Luiz Inácio Lula da Silva se tornaram mais uma representação da realidade do que a realidade em si.

Na última quarta-feira (12), o vice-presidente Geraldo Alckmin cravou, entre outras constatações vigorosas de um governo de sucesso, numa publicação no X: “Já estamos bem próximos à meta [de inflação] de 4,5%”.

Não, ministro. A meta de inflação definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) é de 3% — a banda de tolerância é de 1,5 ponto percentual.

Por outro lado, um já suspenso acórdão do TCU (Tribunal de Contas da União), depois de a AGU (Advocacia-Geral da União) recorrer, determinava a adoção do centro da meta de resultado primário como parâmetro básico para que se considere que o governo cumpriu as regras fiscais… propostas pelo próprio governo.

O governo quer perseguir o piso da meta proposta pelo arcabouço fiscal no ano que vem, de déficit zero. Pelos ditames da regra fiscal que substitui o teto de gastos, a meta para 2026 era de superávit de 0,25% do PIB (Produto Interno Bruto). E poderá.

Segundo a IFI (Instituição Fiscal Independente), entre 2023 e 2025 o governo já engendrou R$ 324,3 bilhões em gastos que ficaram fora das metas fiscais definidas pelo novo arcabouço.

Para o governo, existe uma “banda” que permite que uma meia verdade fiscal ou inflacionária metamorfoseie-se em fato.

Como prevê Baudrillard, o governo cria sua própria versão de realidade: uma em que as metas valem menos do que a existência delas. Aproximação vira cumprimento; tolerância vira centro. E discurso vira realidade.

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