Análise: Trump entrega a Lula picanha mais barata e um discurso
Foram retirados do rol de produtos penalizados mais de 40% dos artigos mais embarcados para os Estados Unidos

A extensa lista de 145 páginas de exceções de taxação extra de 50% sobre produtos exportados pelo Brasil aos Estados Unidos reacendeu o apelido jocoso dado ao presidente do país, Donald Trump: TACO, um acrônimo para Trump Always Chickens Out (Trump sempre amarela, em tradução livre).
No final das contas, a ameaça ostensiva de Trump contra o Brasil ficou aquém do esperado. Foram retirados do rol de produtos penalizados mais de 40% dos artigos mais embarcados para os Estados Unidos. Se não pariu um rato, a montanha deu à luz uma capivara.
Produtos como o suco de laranja, aviões, maquinários, minério de ferro e petróleo estão de fora do tarifaço de Donald Trump.
As exceções, porém, não atingem o café, pescados e carnes. Por ora.
Antes da confirmação dos ditames da tarifa de 50%, o secretário do Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnick, havia afirmado que o país poderia reconsiderar e isentar de tarifas comerciais bens incapazes de "crescer" em solo americano, como café, cacau e outros produtos.
De acordo com Márcio Ferreira, do Cecafé (Conselho dos Exportadores de Café do Brasil), o Brasil é responsável pela produção de 33% de todo o café consumido nos Estados Unidos.
O impacto é relevante, assim como para os frigoríficos. A Abiec (Associação Brasileira de Exportadores de Carne) aponta que o prejuízo para o setor deve alcançar US$ 1 bilhão com a confirmação de uma alíquota de 50% sobre as exportações brasileiras de carnes aos Estados Unidos.
Os Estados Unidos são o segundo maior destino das exportações de carne bovina do Brasil, depois da China.
Se o efeito desinflacionário (num primeiro momento), porém, perde força em relação a insumos antes escoados aos Estados Unidos, o mercado brasileiro deve ser inundado de carne bovina — aumentando a oferta e, portanto, reduzindo o preço. Isso, claro, antes de o mercado se adaptar à nova realidade.
“É possível nós vermos um cenário em que uma parte da produção que era destinada para exportação seja direcionada ao mercado interno, aumentado a oferta desses produtos domesticamente e impactando os preços”, havia dito o secretário de Política Econômica, Guilherme Mello, no dia 11 de julho.
Negociações setoriais são mais fáceis do que em âmbito geral. Agora, produtores e membros do setor produtivo mais impactados pelas tarifas mais elevadas devem impulsionar suas negociações de forma mais específica — contando com a pressão do setor privado norte-americano e acessos facilitados à Casa Branca.
Se, num primeiro momento, os preços das carnes devem ser reduzidos, aquela que era promessa distante do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está mais perto de concretizar: a picanha mais barata, mesmo que efemeramente.
Donald Trump entrega, no curto prazo, tudo o que Lula mais queria: picanha mais barata e um discurso contra um inimigo para chamar de seu.



