Victor Irajá
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Victor Irajá

Com passagens por Estadão e rádio CBN, foi editor do Radar Econômico, da revista Veja. É especializado em Economia pela FGV e pelo Insper

Análise: após falta de luz em SP, Nunes atua como resistor das cargas elétricas de Boulos

Embate na Band é pautado pelo apagão em São Paulo e transferência de responsabilidades pela crise elétrica

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O debate promovido pela Band nesta segunda-feira (14) pode ser comparado a um liquidificador: movido por energia elétrica, afiado e com as lâminas girando em torno de si mesmas.

Energizado pela falta de luz em São Paulo, Guilherme Boulos (PSOL) encarnou um papel acusatório e elétrico enquanto Ricardo Nunes (MDB) atuou como um resistor e um capacitor, recebendo e administrando as cargas de Boulos.

A pergunta que abriu o debate, feita pelo mediador Eduardo Oinegue, envolveu, por óbvio, o apagão que assola a capital paulista desde a última sexta-feira (11).

Os dois tinham dois minutos para responder sobre suas propostas. Posteriormente, ainda no primeiro bloco, Nunes e Boulos tinham 12 minutos para administrar com a pauta livre — totalmente dominada pelo apagão.

Com liberdade concedida aos candidatos para movimentar-se livremente pelo estúdio, Boulos usou bem o espaço e adotou um tom acusatório — ele aproximava-se de Nunes ao indagar o prefeito sobre sua resposta à crise.

“A cidade hoje está refém dessas duas incompetências, da Enel e do prefeito”, afirmou o candidato do PSOL, fazendo referência à concessionária de energia.

Atrás nas pesquisas, Boulos abandonou a posição de “Boulinhos Paz e Amor” e partiu para cima de Ricardo Nunes.

Mais contido, Nunes rebatia e se defendia. Ele culpou a Enel pelo descalabro, acusou o governo federal de ser inerte em relação à concessão e afirmou que entrou com ações judiciais contra a empresa italiana. Disse, ainda, que solicitou ao ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, o fim do contrato com a companhia, e pediu providências para o Tribunal de Contas da União (TCU).

No segundo bloco, também nos mesmos dois minutos, Boulos teve de responder à jornalista Patrícia Rocha sobre suas políticas envolvendo sua atuação como líder do Movimento dos Trabalhadores sem Teto (MTST) e Nunes sobre sua gestão das pessoas em situação de rua.

Mas a presença de outros assuntos no debate não durou muito. Pouco depois, os candidatos voltariam ao aspecto dos impactos da chuva na capital paulista.

A certo momento, os dois repetiam-se, entre acusações e respostas à crise.

Nunes acusava reiteradamente Boulos de nada fazer a respeito da concessão da Enel como deputado federal. Boulos repetia perguntas a respeito da responsabilidade da prefeitura na gestão da crise. A maçante transferência de responsabilidades e repetição dos argumentos marcaram as interações.

Ufa, outros assuntos…

Quando teve a oportunidade, o atual prefeito trouxe seu principal cabo eleitoral, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), para defender suas políticas em torno da segurança pública.

Boulos partiu para o ataque: disse que a Guarda Civil Metropolitana de São Paulo é menor do que a do Rio de Janeiro e disse que vai garantir o combate efetivo ao crime organizado e provocou Nunes. “Você recomenda ao cidadão andar tranquilo com o celular na rua?”, disse.

Tentando ideologizar o debate, Nunes acusou o candidato do PSOL de “defender a liberação de drogas” e o fim da Policia Militar. Boulos, por sua vez, elencou os apoios de Tabata Amaral (PSB) e José Luiz Datena (PSDB).

Ainda em tom acelerado, Boulos chamou o emedebista de “arrogante” e de ter uma postura que mostraria uma confiança, um espírito de “já ganhou”, depois do prefeito dizer que o psolista estava “desesperado” com sua posição nas pesquisas.

Eles continuaram acusando-se sobre indicações de Nunes e o passado de Boulos.

A um certo momento, os dois abraçaram-se ironicamente no estúdio depois de Boulos aproximar-se bastante de Nunes.

“Você quer invadir até o que eu tô fazendo”, ironizou Nunes, que disse que Boulos não o intimidaria porque ele veio “da periferia”.

Mais confronto

No terceiro bloco, com mais 12 minutos para cada um administrar livremente, Boulos fez um longo preâmbulo para acusar o prefeito de firmar contratos superfaturados e de indicar pessoas próximas ao Primeiro Comando da Capital (PCC) na gestão pública.

Nunes voltou a acusar o candidato do PSOL a apoiar a manutenção da concessão da Enel e disse que ele não entende nada, “a não ser de invasão”.

Boulos voltou a bater na tecla de que ele seria o candidato da mudança contra o da continuidade, tentando atrair os votos de eleitores de Pablo Marçal (PRTB), Tabata e Datena.

O prefeito voltou a apresentar-se como um político “experiente”, alegando que o psolista não teria capacidade de gerir a capital paulista porque “nunca administrou nada” — tentando administrar a boa posição de acordo com as pesquisas.

Posteriormente, o candidato do PSOL trouxe à tona a gestão de Jair Bolsonaro durante a pandemia de Covid-19 e perguntou para o emedebista se o ex-presidente teria “feito tudo correto na pandemia”.

Nunes saiu pela tangente e disse que São Paulo se tornou “a capital mundial da vacina” e disse que não faltaram insumos em São Paulo durante a crise sanitária.

Os paulistanos que tinham luz em casa e conseguiram assistir ao debate viram um embate ácido e dinâmico.

De acordo com o último levantamento oficial feito pela Enel, mais de 300 mil residências ainda não tinham energia elétrica nesta segunda. Quem sabe, consigam assistir às propostas e acusações posteriormente pela internet quando conseguirem carregar seus celulares enquanto os candidatos ainda discutem de quem é a culpa.