Victor Irajá
Blog
Victor Irajá

Com passagens por Estadão e rádio CBN, foi editor do Radar Econômico, da revista Veja. É especializado em Economia pela FGV e pelo Insper

Análise: debate em BH é marcado por acusações e “imitação” de Marçal

Fuad Noman novamente vira alvo, enquanto candidatos promovem ataques entre si

Compartilhar matéria

A divulgação da última pesquisa Datafolha para a prefeitura de Belo Horizonte nesta quinta-feira (3) aumentou as expectativas para o último e mais quente debate entre os candidatos, promovido pela TV Globo.

O encontro foi marcado por acusações e, novamente, por uma metralhadora de críticas contra o atual prefeito, Fuad Noman (PSD).

 

 

Mauro Tramonte (Republicanos) e Bruno Engler (PL) atacaram — e o atual prefeito teve de defender sua gestão durante as mais de duas horas e meia de debate. E por um simples motivo: os três apareceram em empate triplo na pesquisa divulgada horas antes do debate segundo o levantamento; cada um tem 21% das intenções de voto.

Tramonte tinha dez pontos percentuais a mais que os dois outros candidatos no último levantamento. Eram 28% do apresentador licenciado contra 18% de cada um dos outros dois, duas semanas atrás.

Mas os debates — e mesmo as acusações — envolveram, em sua grande maioria, aspectos relacionados ao terceiro maior colégio eleitoral do país.

Além dos três, participaram do debate Carlos Viana (Podemos), Duda Salabert (PDT) e Rogério Correia (PT).

Em muitos momentos, os sete candidatos enfrentaram-se e fizeram debates acalorados entre si. Em uníssono, apenas as críticas dos seis candidatos à atual gestão, como no último debate, promovido pela rádio Itatiaia no último dia 1º.

Fuad acusou Gabriel Azevedo (MDB) e Duda Salabert de combinarem críticas contra ele nos bastidores. Nas considerações finais, Fuad afirmou que preferiu “não aparecer muito” durante seu mandato e se apresentou como “o candidato democrático contra dois candidatos da direita”.

O candidato do PT protagonizou um embate com Tramonte, que vê a gordura anteriormente conquistada nas pesquisas queimando, chamado de “candidato do Zema”.

Ele acusou o deputado estadual de votar a favor do aumento de salário de 300% para o governador Romeu Zema (Novo), além de faltar a sessões de Assembleia Legislativa.

Tramonte se defendeu. Disse que “tem dois empregos” e se comparou a gente “que tem dois empregos para poder sobreviver”.

Posteriormente, Tramonte ainda ouviria a acusação de que faltou por diversas vezes à Assembleia e protagonizou mais embates indiretos com Correia.

Em interação com Duda Salabert, Tramonte acusou Fuad de ser “financiado pelo pessoal do ônibus” e tentou associar o atual prefeito ao deputado e ex-governador Aécio Neves (PSDB), de quem Fuad foi secretário.

Já Fuad procurou o embate direto com o candidato do Republicanos envolvendo políticas para a educação — buscando um contingente similar de eleitores.

No último bloco, Tramonte voltou a tocar na relação da prefeitura com concessionárias de ônibus. Fuad disse que foi o primeiro prefeito a enfrentar as empresas.

Com as duas candidaturas de esquerda estagnadas nas pesquisas e votos do campo progressista divididos, Duda Salabert também focalizou suas críticas ao atual prefeito.

Ele tentou fazer uma dobradinha com a deputada para atacar o candidato do PL, trazendo projetos assinados pelo deputado estadual “contra a população transexual”.

“Me assusta muito a política que o deputado tem apresentado para combater uma comunidade tão importante como a LGBT”, disse Fuad.

Duda respondeu rapidamente que os projetos são inconstitucionais e mirou Fuad. “Esses debates sobre transfobia tem que se fazer, mas antes disso tem que se garantir a comida no prato do belo-horizontino”, afirmou ela.

“Sou candidata para discutir problemas reais e não espantalhos que a extrema-direita utiliza”, afirmou Duda.

Em outras ocasiões, ela voltou a essa interação acusando o atual prefeito de trabalhar no serviço público durante a ditadura militar. O prefeito foi o principal alvo da deputada durante todo o debate.

Sumido no debate, Gabriel Azevedo atacou o trânsito de Belo Horizonte, contratos atuais de ônibus e políticas de Fuad.

Se Correia e Engler tentaram se associar a Lula e Bolsonaro, respectivamente, o candidato do MDB tentou associar sua imagem ao mineiro Juscelino Kubitscheck por mais de uma ocasião.

Carlos Viana (Podemos) também teve atuação discreta. O candidato tentou atrair o voto evangélico citando a Bíblia e exaltou sua experiência como senador e as ofertas de recursos para Belo Horizonte por meio de emendas para obras. Duda também citou a Bíblia em suas considerações finais.

Viana defendeu a revisão das outorgas para a construção civil, os contratos de ônibus e a revisão do Plano Diretor da capital mineira — a lei será revista durante a próxima gestão.

O candidato do MDB e atual presidente da Câmara Municipal acusou o atual prefeito de proximidade com empresários de ônibus. Por reiteradas vezes, chamou Fuad Noman de “candidato ausente”, em alusão à não-ida do atual prefeito a alguns dos debates.

O atual prefeito teve um direito de resposta concedido depois dessa acusação. “Nunca tive um problema, tenho uma história limpa. Ele fez uma CPI e não apurou nada. O que ele fala é de um jantar de adesão. Ele fez o dele; eu fiz o meu”, disse.

Fuad Noman disse que o “jantar de adesão” custou R$ 35 mil reais aos empresários, em uma campanha “que custa mais de R$ 20 milhões”, indagando, ironicamente, se isso se classificaria como financiamento da campanha por parte dos empresários.

Bruno Engler foi isolado pelos opositores. No primeiro bloco, Viana foi obrigado a perguntar para Engler — por ser o último — e ideologizou o debate. Ao final de outro bloco, Gabriel Azevedo também teve de perguntar a Engler, já que era o único candidato que faltava.

Batendo na tecla que é “de direita”, Viana indagou o deputado se ele tinha se imunizado conta a Covid-19 e dizendo que ele se apresenta como “o único candidato da direita”.

“Eu não tomei a vacina do Covid e sou a favor de distribuir vacinas”, disse Engler. “O trabalho do prefeito é conscientizar e disponibilizar vacinas para aqueles que quiserem.”

Em outra ocasião, tentando nacionalizar o debate, Correia chamou Engler de “candidato do Bolsonaro”, trouxe a cloroquina para o debate e disse que ele resume suas políticas públicas a atacar o PT e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Os dois tiveram outra interação direta obrigatória em que tentaram correlacionar sua disputa ao embate entre Lula e Bolsonaro.

Depois de ouvir que usou cloroquina durante a pandemia, Engler “imitou” o candidato do PRTB em São Paulo, Pablo Marçal — insinuando que o candidato do PT usaria drogas “que rimam com cloroquina”.

Em direito de resposta, Rogério Correia disse que processará o candidato do PL, a quem chamou de “sujeito”. Em mais de uma ocasião, ele criticou a gestão de Bolsonaro e exaltou sua relação com Lula.

Enquanto as horas passavam, no último bloco, o debate que era quente — que acabou depois de 0h53 — perdeu energia e ficou mais morno, ainda pautado pela saraivada de críticas a Fuad, mas mais voltado a propostas.

A quantidade de candidatos explica a duração mais longa do que debates que aconteciam ao mesmo tempo, como em São Paulo ou no Rio de Janeiro, que terminaram pouco depois da madrugada adentrar-se à sexta-feira.