Buffett nega investimento e IRB enfrenta desconfiança do mercado


André Jankavski e Luísa Melo Do CNN Brasil Business, em São Paulo
04 de Março de 2020 às 19:07 | Atualizado 15 de Março de 2020 às 20:14
Warren Buffett

Magnata Warren Buffett negou ter ações na resseguradora IRB (04.Mai.2019)

Crédito: Scott Morgan/Reuters

Um anúncio da Berkshire Hathaway, holding de investimentos do bilionário e guru Warren Buffett, pegou o mercado de surpresa, especialmente os acionistas da resseguradora IRB Brasil Re, na noite de terça-feira (3).

Nos últimos 12 meses, foi propagado que o megainvestidor seria um dos grandes investidores da resseguradora, que abriu capital em 2017 após ser privatizada quatro anos antes. A história foi além: na semana passada, a notícia era que Buffett tinha aumentado a sua posição na empresa. O problema principal é que a história não era verdadeira, segundo a própria Berkshire.

A nota assinada pela holding americana foi dura: “A Berkshire Hathaway Inc. não possui ações da IRB atualmente, nunca foi acionista do IRB nem tem a intenção de se tornar acionista da IRB.” Bastou isso para as ações despencarem mais de 30% nesta quarta-feira (4). A dúvida que paira no mercado, agora, é até que ponto o IRB, que é a maior resseguradora do Brasil com cerca de 40% de participação do mercado, tem mais esqueletos no armário.

Essa não foi a primeira encrenca em que o IRB se meteu em 2020. Um relatório da gestora de fundos Squadra apontou que a empresa aumentou o seu lucro de forma artificial em 2019. Segundo a gestora, o lucro de cerca de R$ 1,4 bilhão registrado pelo IRB nos três primeiros trimestres de 2019 seria, na verdade, um prejuízo de R$ 112 milhões. Entre os dados extraordinários estavam contabilização de recebimentos de sinistros ainda não pagos e até a venda de participação em um shopping.

Essas suspeitas acabaram se tornando um problema ainda maior quando Ivan Monteiro, então presidente do conselho do IRB Brasil, decidiu renunciar. A versão oficial foi que ele estava exausto e pedia para cuidar da saúde. No mercado, no entanto, havia outra variável: Monteiro, que já ocupara a posição de presidente da Petrobras em 2018, não confiava na gestão atual. Em um primeiro momento, o IRB negou que Monteiro estava saindo. Dois dias depois, confirmaram o desligamento.

Com tantos problemas ao mesmo tempo, algumas questões começam a surgir no mercado. Segundo apuração da CNN Brasil Business, há uma grande preocupação rondando os investidores. Uma resseguradora funciona como uma seguradora das seguradoras. Ou seja, servem para que as empresas de seguro diminuam eventuais prejuízos em sinistros futuros.

Assim como bancos, as seguradoras são muito dependentes de suas imagens. Uma pessoa não coloca o dinheiro em um banco pensando que ele pode sumir amanhã. E seguradoras não vão negociar contratos com uma resseguradora que pode não cumprir com as suas obrigações no futuro.

“Essa crise de credibilidade é o principal problema do IRB. Por enquanto, as empresas do setor continuam negociando com ela, mas todas estão com o sinal de alerta ligado”, diz uma fonte ligada ao setor. “A confiança é fundamental para o funcionamento do IRB.”

Analistas estão preocupados com o futuro da empresa. “É uma mentira no meio de várias. Acredito que no longo prazo, a ação pode ir para zero”, disse um analista que não quis se identificar. Na tarde desta terça, o cofundador da Alaska, Henrique Bredda, disse no Twitter que a gestora não investiu no IRB porque não era possível entender como a resseguradora lucrava.

"Me perguntaram no passado porque não tínhamos IRB e respondemos que não conseguimos entender de onde vinha o lucro. Aí perguntamos para quem investiu por muito tempo em seguradoras – e eles também não entendiam. Então ficamos de fora. Só isso", escreveu. Procurado, o IRB se manifestou apenas com o seu comunicado ao mercado e disse que o conselho e a diretoria estão promovendo "uma análise criteriosa em sua base acionária." 

Especialistas ouvidos por CNN Business Brasil levantaram a preocupação de que mais problemas podem aparecer nessa devassa atual no IRB. Mais: há dúvidas se esses problemas não podem afetar outras empresas privatizadas recentemente. 

Para a economista Elena Landau, que foi uma das responsáveis pelo programa de privatizações dos governos Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, a crise do IRB deve ser uma exceção. Segundo ela, os problemas foram identificados muito tempo depois da empresa ter sido privatizada. 

“O problema seria se aparecesse logo após a privatização, como um passivo oculto. Não foi esse o caso”, diz Landau. Então, o problema é só do IRB. Se quiser recuperar a confiança do mercado e do setor, a resseguradora precisará se mexer. E rápido.