PIB cresce 1,1% em 2019, o menor avanço em três anos


André Jankavski, Luís Lima e Luísa Melo Do CNN Brasil Business, em São Paulo
04 de março de 2020 às 09:50 | Atualizado 15 de março de 2020 às 17:16
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Consumo das famílias aumentou 1,8% e liderou o crescimento (03.Jan.2020)

Crédito: Denny Cesare/Código19/Estadão Conteúdo

A economia brasileira cresceu 1,1% em 2019, divulgou nesta quarta (4) o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado do Produto Interno Bruto (PIB) somou R$ 7,3 trilhões e foi puxado pelo consumo das famílias, que aumentou 1,8% no ano. O número veio em linha com o que esperavam os especialistas no último Boletim Focus, que previam um crescimento de 1,17%, mas está distante das estimativas otimistas do início de 2019.

Pela ótica da oferta, o setor de serviços, que representa dois terços do PIB, avançou 1,3%, puxado principalmente pelos ramos de informação e comunicação, imobiliário e comércio. 

A indústria cresceu 0,5%, mesmo percentual visto em 2018. Apesar disso, a construção civil teve desempenho positivo, com alta de 1,6%, a primeira após cinco anos de retração. Já a agropecuária teve alta de 1,3%.

“São três anos de resultados positivos, mas o PIB ainda não anulou a queda de 2015 e 2016 e está no mesmo patamar do terceiro trimestre de 2013”, diz Rebeca Palis, coordenadora das Contas Nacionais do IBGE, em nota. “A maior contribuição para o avanço do PIB vem do consumo das famílias, que cresceu 1,8%. Pelo lado da oferta, o destaque foi o setor de serviços, que representa dois terços da economia”, completa.

Os dados apresentados pelo IBGE nos últimos meses de 2019 já demonstravam que o resultado do ano não seria nem perto das expectativas iniciais de especialistas e integrantes do governo. Foi o terceiro ano consecutivo em que o PIB cresceu perto de 1%, em mais um ano de expectativas frustradas.

Entre os fatores que impactaram negativamente a economia estão os efeitos do desastre de Brumadinho no setor produtivo, a guerra comercial entre Estados Unidos e China, a recessão na Argentina (importante parceira comercil do Brasil) e a recuperação lenta do mercado de trabalho.

Membros do governo, como o secretário Especial de Produtividade, Emprego e Competitividade, Carlos da Costa, acreditavam que o PIB tinha potencial de subir até 3,5% em 2019. Não foi bem assim. Entraves como o atraso no andamento de reformas adicionais à da Previdência, entre elas a administrativa e a tributária, e incertezas também impediram uma expansão robusta.

O baixo nível de investimentos foram outro obstáculo. A formação bruta de capital de fixo (FBCF), indicador que mede esses aportes, aumentou 2,2% no ano passado, atingindo 15,4% do PIB. Apesar disso, o número ainda está bem abaixo dos mais de 20% vistos antes da crise e é insuficiente para fazer a atividade econômica deslanchar.

Com o orçamento público limitado pelo teto de gastos – os desembolsos do governo recuaram 0,4% em 2019 –, o Brasil depende cada vez mais do investimento do setor privado para deslanchar. Porém, a capacidade ociosa ainda alta na indústria e a falta de confiança fazem com que empresários adiem decisões, e incertezas afastam os recursos estrangeiros.

“A taxa de juros mais baixa fez com que o estrangeiro que investia em renda fixa no Brasil fosse embora porque a rentabilidade caiu muito. E o investidor de ações, que apoia projetos de mais longo prazo, ainda não chegou porque tem riscos”, diz o consultor financeiro Wilber Colmerauer, sócio fundador da EM Funding, que conecta investidores estrangeiros a gestores de fundos em mercados emergentes.

Quarto Trimestre

No último trimestre de 2019, o PIB cresceu 0,5%, alta abaixo da registrada no terceiro, de 0,6%. A comparação é com os três meses anteriores.

Do lado da oferta, os serviços avançaram 0,6% no quarto trimestre, enquanto a indústria teve alta de 0,2% e a agropecuária recuou 0,4%.

Já pela ótica da demanda, o consumo das famílias subiu 0,5%, enquanto os gastos do governo aumentaram 0,4% e os investimentos caíram 3,3%.

O que esperar de 2020?

Para este ano, os sinais apontam para mais um ano de crescimento baixo, já que boa parte dos problemas enfrentados durante o ano passado permanecem. Em dezembro, os economistas ouvidos pelo Banco Central no Boletim Focus previam alta de 2,3% para o PIB em 2020. Na última edição, o percentual esperado caiu para 2,1%. O governo prevê aumento de 2,4%, mas há bancos que já trabalham com números abaixo de 2%.

A reforma tributária, considerada essencial para melhorar o ambiente de negócios brasileiro e atrair recursos de estrangeiros, teve a comissão mista do Congresso instalada no fim de fevereiro. O colegiado formado por 25 senadores e 25 deputados começou a se reunir nesta semana para discutir as propostas que estavam tramitando tanto no Senado quanto na Câmara. A vontade do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, é que o texto final seja aprovado este ano, mas há diversos pontos que podem atrapalhar essa previsão.

O principal deles é a relação do presidente Jair Bolsonaro com o Congresso. Nas últimas semanas, o presidente entrou em rota de colisão com os parlamentares ao enviar vídeos de apoio às manifestações do dia 15 de março, que tem o Congresso como um dos principais alvos. E isso só vem preocupando economistas, que veem no Legislativo a melhor saída para o país realizar as mudanças necessárias para uma retomada da economia.

“Um crescimento mais robusto só será possível após o governo endereçar as reformas estruturantes, como a administrativa e tributária, no Congresso. Além disso a aprovação de marcos regulatórios no parlamento poderá trazer segurança jurídica a setores como mineração e o elétrico, atraindo investimentos”, afirma Álvaro Bandeira, economista-chefe do banco digital ModalMais.

A instabilidade global também preocupa os especialistas em suas previsões para 2020. O principal fator que contribui para esse cenário, obviamente, é o avanço da epidemia de coronavírus para além da China, que pode reduzir o crescimento da economia global. Por conta do surto da doença, alguns bancos baixaram as estimativas para o PIB do Brasil neste ano. O Bank of America Merril Lynch e o Goldman Sachs cortaram suas previsões de aumento 2,2% para 1,9% e 1,5%, respectivamente, e o JP Morgan diminuiu de 1,9% para 1,8%.

Na terça-feira (3), em resposta aos possíveis efeitos do vírus, o Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, convocou reunião extraordinária e cortou os juros do país em 0,5 ponto percentual, passando para a faixa de 1% ao 1,25% ao ano. O Fed não fazia um corte de emergência na taxa desde a crise financeira de 2008.

Para completar, as eleições, tanto no Brasil quanto fora do país, podem trazer mais instabilidade para a economia. Em plano global, o resultado das eleições americanas, que serão realizadas em novembro, deverá ser um importante para fator para a decisão de qualquer investidor. Por aqui, as eleições municipais serão determinantes para entender até que ponto o clima político continua tenso no país – e se a economia brasileira continuará sendo impactada por essa polarização.