Mesmo em queda, ações podem pagar dividendos. Saiba em que setores apostar


Luísa Melo do CNN Brasil Business, em São Paulo
14 de março de 2020 às 17:20 | Atualizado 16 de março de 2020 às 09:30
 
Operador da bolsa de valores brasileira, a B3, em 7 de janeiro de 2016

Ações de empresas de energia e de saneamento e de bancos são candidatas a pagar bons dividendos 

Foto: Paulo Whitaker/Reuters
 

Mesmo em momentos de pânico e de queda generalizada dos mercados, como agora, quem investe em ações com foco no longo prazo pode ganhar dinheiro. Quando se pensa em bolsa de valores, geralmente a primeira ideia é a de comprar papéis na baixa para vendê-los futuramente a um preço mais alto, mas também é possível receber bons dividendos.

O dividendo é, basicamente, uma fatia do lucro que as empresas de capital aberto repartem periodicamente com seus acionistas – uma espécie de remuneração para quem compra ações e, assim, se torna um sócio de determinada companhia. 

Normalmente, as melhores pagadoras de dividendos são empresas consolidadas e que atuam em áreas consideradas fundamentais para a sociedade, como a de energia elétrica, de saneamento e financeira. Elas escolhem pagar dividendos para manter a sua base de acionistas. Como dificilmente haverá alguma grande disrupção em seus setores e elas têm fluxos de mais caixa previsíveis, também não é de se esperar que o preço das ações tenha saltos vultosos, o que pode não atrair investidores mais arrojados. 

Com a renda fixa menos atraente devido à queda da taxa de juros a mínimas históricas, 1,1 milhão de investidores estrearam na B3 nos últimos dois anos. Para os iniciantes, fica um alerta: com a economia em constante e rápida transformação, não dá para comprar uma ação, esquecer na carteira e confiar que ela vai pagar dividendos intermináveis. Ainda assim, acompanhando o mercado de perto, há saídas para quem quer apostar nessa renda.

“É óbvio que o capitalismo é brutal e as mudanças estão cada vez mais rápidas, mas existem negócios previsíveis e com fluxos de caixa mais estáveis, que estão consequentemente mais aptos a distribuir dividendos”, diz Rafael Cota Maciel, gestor de renda variável da gestora AF Invest.

Conhecido como “rei da bolsa”, Luiz Barsi é talvez o principal propagador da ideia de “viver de dividendos”. Um dos maiores investidores individuais do país, com um patrimônio aplicado estimado em R$ 2 bilhões, Barsi garante ter ações compradas há 50 anos que continuam dando bons retornos. Entre elas, cita as do Banco do Brasil e da fabricante de papel e celulose Klabin.

Barsi diz investir em ações para ser um "pequeno dono" das empresas e ganhar sua parte no lucro delas ao longo do tempo. Por isso, afirma não ligar para a quantia que tem investida na bolsa, que oscila conforme o sobe e desce do preço dos papéis: "Já tive R$ 3 bilhões, mas também já tive R$ 500 milhões".

Pelo mesmo motivo, nos últimos dias em que a bolsa despencou, mostrou-se tranquilo em entrevistas e nas redes sociais. É que a desvalorização dos papéis não necessariamente afeta a distribuição de dividendos das companhias – o pagamento só deixa de ser feito em caso de prejuízo, queda nos lucros ou mudança de estratégia (elas podem decidir investir os ganhos, por exemplo).

Ao mesmo tempo, é claro, o megainvestidor admite que parte de sua fortuna vem de aproveitar oportunidades. Conta, por exemplo, ter comprado ações da Petrobras a R$ 4,90 e vendido depois com uma valorização de quase 400%.

Onde achar bons dividendos

Para Barsi, as empresas que pagam gordos dividendos, além de serem bem administradas e apresentarem resultados sustentáveis, são de setores “perenes”.

“Um setor perene é aquele o qual a economia não vive. Você, por acaso, viveria sem tomar banho? Sem tomar água? Então empresas de saneamento são boas oportunidades, dependendo do preço. Você viveria às escuras, sem ter geladeira, rádio ou televisão? Não. Então, você precisa de energia elétrica. Você viveria sem um celular hoje? Ou sem uma conta bancária? Não”, afirma.

Maciel, da AF Invest, também cita os segmentos elétrico e financeiro como possíveis bons pagadores de dividendos. Um dos fundos que ele administra, conservador e com patrimônio aproximado de R$ 100 milhões, tem uma exposição de cerca de 10% à Itaúsa, companhia que controla o banco Itaú, e de 5% à transmissora de energia Taesa, por exemplo.

As empresas de transmissão, aliás, são apontadas por Barsi como os melhores ativos do setor elétrico. Intermediárias das geradoras e distribuidoras, elas têm receita anual garantida pelo governo em leilão por longo prazo – desde que consigam entregar o acordado no contrato. Essas companhias também têm custos operacionais e investimentos demandados mais baixos do que os das parceiras.

“Então, independentemente do coronavírus, que está preocupando agora, ou de inovações realizadas pela Apple ou Amazon, a transmissora permanece”, endossa Maciel. Já os bancos, apesar do ‘boom’ de concorrência das fintechs e a despeito das crises, continuam apresentando resultados crescentes no Brasil.

O que saber antes de comprar

É claro que nem toda empresa desses setores tem potencial para pagar bons dividendos. Para identificar as oportunidades, é preciso analisar a saúde financeira, o histórico e as perspectivas de negócios antes de investir. O volume de lucro distribuído, por si só, também não é uma medida suficiente, segundo especialistas.

Um indicador que sempre precisa ser levado em conta é o “dividend yield”, que mede a performance da empresa de acordo com os pagamentos realizados aos seus acionistas. O número é calculado pelo valor pago em dividendos por cada ação dividido pelo preço do papel na bolsa, vezes 100. Quanto mais alto ele for, melhor. 

Os bancos Itaú, Banrisul e Bradesco, além da corretora de seguro Wiz e da empresa de transmissão de energia Taesa, aparecem como as melhores candidatas a boas pagadoras de dividendos para 2020 em um levantamento realizado pela provedora de soluções financeiras Economatica. Elas são as empresas com os maiores dividend yields projetados para o ano. Veja o ranking:

Para chegar esses números, a Economatica considerou que as empresas vão manter a mesma política de distribuição de dividendos adotada em 2019. A lista só inclui as que repartiram ao menos 75% do lucro com os acionistas e também só leva em conta as ações mais negociadas na bolsa, com volume financeiro médio superior a R$ 5 milhões. O preço considerado para cada papel é o do dia 31 de dezembro de 2019.

Preço conta

Se o preço de uma ação cai, mas seus negócios continuam com boa perspectiva de crescimento e de lucro (e, portanto, de remuneração aos investidores), seu dividend yield aumenta. É por isso que, em momentos em que a bolsa despenca, como aconteceu nos últimos dias, não só os especuladores aproveitam para ir às compras, mas também os investidores de longo prazo.

“Para nós, quando o mercado cai é bom. A gente gosta de comprar empresas boas e baratas”, diz Maciel. O clima de pânico também ajudou Barsi a aumentar a sua carteira. “Estou comprando tudo o que posso”, afirma ele.

Todo investimento em renda variável, porém, envolve riscos. A própria transformação da economia é um deles e pode levar empresas a pararem de pagar dividendos, segundo Gustavo Almeida, especialista em ações da casa de análise Spiti. Para ele, a agilidade e as novas formas de negócio trazidas pela internet provocaram uma queda na margem de lucro das companhias e, com ganhos menores, a tendência é que elas passem a reinvestir esse dinheiro para se expandir em vez de remunerar os acionistas.

“No passado tinha menos concorrência, os ciclos eram mais demorados, a resposta do consumidor era mais lenta. Por isso as margens eram maiores e as empresas conseguiam crescer e ainda remunerar seus acionistas. Hoje, muitas dão menos lucro do que conseguem crescer, mas são bem posicionadas em inovação, e o mercado paga prêmio em relação a isso.”