O PIB fraco de 2019 deve se repetir em 2020?


André Jankavski do CNN Brasil Business, em São Paulo
14 de março de 2020 às 17:13 | Atualizado 15 de março de 2020 às 15:39
Trabalhadores em linha de montagem de fábrica de automóveis em São Bernardo

Trabalhadores em linha de montagem de fábrica de automóveis em São Bernardo do Campo (13.AGO.2013);

Foto: Nacho Doce/Reuters
 

O ministro da Economia, Paulo Guedes, tenta convencer o mercado do contrário, mas trata-se de algo praticamente inevitável: em 2020, o Brasil terá um crescimento da economia abaixo de 2% novamente. É claro que as crises do coronavírus e do petróleo, em um momento que a Arábia Saudita decidiu aumentar a sua produção para entrar em uma guerra de preços com a Rússia, devem contribuir muito para esse cenário. Porém, o problema é bem maior do que parece e a equipe econômica, assim como o governo como um todo, precisam reagir.

As expectativas estão fora de realidade há algum tempo. No início do ano passado, por exemplo, o mercado e o governo esperavam uma expansão de 2,5%. Depois, em maio, as expectativas foram para 1,5%. No fim, como sabemos, o crescimento alcançou apenas 1,1%. Em 2020, as revisões já começaram. Ao contrário da previsão inicial, que era de uma expansão do PIB de 2,4%, o Ministério da Economia já admitiu que o crescimento não deve ultrapassar os 2,1% – o que os economistas acreditam ser uma estimativa bem positiva.

Mas, afinal, o quanto dessa lenta recuperação é provocada pelos efeitos de fora do Brasil e o quanto é de responsabilidade do próprio país? Para especialistas, antes de culparmos a expansão do coronavírus, o governo precisa fazer uma boa análise do próprio papel. “Somos uma economia medíocre há muito tempo. Mesmo quando crescíamos mais, estávamos na média, o que não deixa de ser um resultado medíocre”, diz Marcos Lisboa, presidente da escola de negócios Insper. “Temos um contencioso tributário gigantesco, empresas ineficientes e uma economia ainda muito fechada.”

A prova disso é o desempenho da produtividade brasileira, que vai de mal a pior. Para um país crescer de forma sustentável, é necessário que a produtividade acompanhe (ou ultrapasse) o desempenho da economia. Historicamente, o Brasil baseia o seu modelo de crescimento no aumento da produção por meio do crescimento da força de trabalho e capital. Isso não é mais suficiente no presente e muito menos em um futuro bem próximo: a partir da próxima década, a população com idade para trabalhar terá um declínio com o envelhecimento da população. Por isso, é necessário fazer mais com menos.

Mas não é isso o que vem acontecendo nos últimos anos. Segundo dados organizados pelo Instituto Brasileiro de Economia, ligado à Fundação Getulio Vargas (IBRE-FGV), enquanto o PIB cresceu 1,3%, em 2017 e 2018, a produtividade aumentou apenas 1,2% e 0,1%, respectivamente. No ano passado, o resultado foi ainda pior: enquanto a economia avançou 1,1%, a produtividade teve uma redução de 1%.

Um dos principais fatores que justificaram essa queda está na retração dos investimentos, tanto público quanto privado. Para se ter uma ideia, o investimento encontra-se cerca de 25% abaixo do nível alcançando no segundo trimestre de 2013. Para piorar o problema, o Brasil investe mal. Um relatório do Tribunal de Contas da União divulgado no ano passado mostrou que o país tem 14 mil obras paralisadas no valor de R$ 144 bilhões – um dinheiro que dificilmente voltará até por causa das depreciações e degradações das construções.

“É difícil haver uma recuperação com poucos investimentos. E estamos em um momento em que reformas macroeconômicas ajudariam a melhorar o ambiente de negócios e trazer confiança para uma retomada nos investimentos”, diz Silvia Matos, pesquisadora do IBRE-FGV.

Nesse contexto, as reformas podem melhorar o cenário para o Brasil. É verdade que muito foi prometido com a aprovação de projetos como a reforma da Previdência (como um crescimento mais acelerado, que não veio), mas uma remodelação do sistema tributário brasileiro poderia trazer ganhos rápidos na economia.

Nas contas do economista Bernard Appy, um dos criadores do Centro de Cidadania Fiscal (CCiF) e o formulador das propostas da PEC 45 – projeto da reforma tributária que está em andamento no Congresso –, o crescimento do PIB teria um acréscimo de 0,7 ponto percentual por ano até 2035 caso a proposta seja aprovada até dezembro.

Além disso, essa mudança poderia resolver o grande problema do caos tributário em que o país se encontra. Atualmente, as empresas gastam quase duas mil horas e R$ 60 bilhões todos os anos somente para calcular o pagamento de impostos.

Porém, a proposta da reforma tributária, além de outros que são consideradas importantes pelo mercado, como a PEC do pacto federativo e a reforma administrativa, estão emperradas no Congresso. Isso porque o presidente Jair Bolsonaro e a sua equipe ainda não conseguiram construir uma relação saudável com o Congresso Nacional desde o início do mandato.

“A discussão da reforma da Previdência foi iniciada no governo do ex-presidente Michel Temer, então o atual governo pegou um assunto já muito debatido e aceito pelo Congresso e até pela sociedade”, diz Sérgio Vale, economista chefe da consultoria MB Associados. “Ainda não vejo um avanço das reformas que teriam uma marca do próprio presidente.”

Não à toa, essa instabilidade política está sendo uma das causas da revisão para baixo do PIB. Economistas ouvidos pelo CNN Brasil Business esperam que o Brasil tenha uma recessão no primeiro semestre, mas se recupere na segunda metade do ano. Nenhum, no entanto, descartou uma recessão mais prolongada, caso os efeitos do coronavírus sejam mais devastadores para a economia global. 

Esse pessimismo fica evidente nas previsões para o PIB do banco suíço UBS. Hoje, a instituição não enxerga espaço para uma expansão da economia além de 1,3%. No pior cenário possível, em que há um agravamento das crises globais, a instituição coloca um aumento de 0,7%.

“O consenso para a economia está com viés para baixo. Se o governo tivesse plantado questões de concórdia, e não de discórdia, o cenário poderia ser diferente, pois o Brasil estaria mais equipado para enfrentar a tempestade”, diz Celso Toledo, diretor de macroeconomia da consultoria LCA. As previsões estão caindo e o “pibinho” deve continuar sendo a realidade brasileira por mais um ano. O presidente ainda tem dois anos e meio para mudar o jogo – basta focar nos problemas certos.