Dólar fecha acima de R$ 5 pela primeira vez em reação a cortes de juros do Fed

Investidores têm dúvidas sobre capacidade de bancos cetrais e governos de responderem aos impactos da pandemia de coronavírus

Reuters
16 de março de 2020 às 09:17 | Atualizado 17 de março de 2020 às 01:23
Com ameaça do coronavírus, dólar tem alcançado máximas históricas
Foto: Guadalupe Pardo/Reuters (14.10.2015)

O dólar fechou acima dos R$ 5 pela primeira vez na história, diante de dúvidas dos mercados sobre a capacidade de bancos centrais e governos de lidar com a crise do coronavírus. A moeda americana teve e a maior alta percentual diária em quase três anos, de 4,86%, e um dos piores desempenhos globais, ao fechar em R$ 5,0467.

A alta percentual é a mais intensa desde a disparada de 8,15% de 18 de maio de 2017, data que ficou conhecida como "Joesley Day", depois de o empresário Joesley Batista ter divulgado áudios do então presidente da República Michel Temer. 

No Brasil, o câmbio foi afetado também pelo salto nas apostas de corte mais agressivo de juros pelo Banco Central brasileiro na próxima quarta-feira, depois de o Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA) em novo movimento emergencial derrubar o juro norte-americano para perto de zero no domingo.

Operadores -- que poucos dias atrás quase zeraram apostas de corte de 0,25 ponto percentual da Selic nesta semana-- não apenas retomaram essas posições como as intensificaram, com a curva de juros futuros, chegando a mostrar probabilidade de redução de 0,75 ponto percentual.

Já o UBS vê corte ainda mais agressivo, de 1 ponto percentual, e diz que não há razão para o BC esperar até quarta-feira para anunciar sua decisão, que pode ser antecipada até para esta segunda, segundo o banco privado.

"Também devemos esperar o anúncio de um programa de intervenção cambial mais estruturado", disse o banco em relatório nesta segunda-feira, assinado por Tony Volpon e Fabio Ramos.

Os sucessivos cortes de juros dos últimos vários meses reduziram a diferença entre as taxas pagas pelos títulos brasileiros e os papéis norte-americanos -- considerados os mais seguros do mundo. Assim, o investidor estrangeiro tem tido menos estímulo para aplicar na renda fixa local, o que tem prejudicado o fluxo cambial e jogado contra melhora na oferta de dólar no país.

Apesar do salto do dólar e da depreciação mais forte do real que a de outras moedas nesta sessão, o Banco Central não atuou no mercado com venda de swaps, dólar à vista ou leilões de linha, diferentemente dos últimos dias, ao longo dos quais utilizou as três ferramentas.

A inação do BC foi citada como componente para a alta mais forte do dólar nesta sessão.

"Talvez o BC possa carregar a mão nas intervenções diárias", disse Rafael Panonko, chefe da área de research da Toro Investimentos. "A inflação por ora está tranquila, mas pode subir agora com a corrida das pessoas aos supermercados, e esse movimento do câmbio definitivamente não ajuda. O BC deve fazer as duas coisas: cortar juro e defender o câmbio", acrescentou.

O dólar disparou nesta sessão frente a várias divisas emergentes, com destaque negativo para o peso mexicano, e perdia 1,8% ante o iene, considerado porto seguro, num movimento típico de um mercado avesso a risco diante dos temores sobre os efeitos econômicos do coronavírus.

A alta da moeda dos EUA acelerou no fim da tarde conforme as bolsas de valores em Wall Street aprofundaram as perdas. O S&P 500, índice de referência do mercado acionário dos EUA, desabou quase 12%, enquanto o índice visto como um "termômetro do medo" em Nova York fechou em máxima histórica.

Em março, o dólar acumula alta de 12,62%, enquanto em 2020 a moeda se valoriza 25,76%. O dólar futuro da B3 --em que os negócios se encerram às 18h-- tinha alta de 3,95%, a R$ 5,0235.