Pacote do CMN é paliativo, mas importa mais que corte dos juros, diz Zeina Latif

Para economista, medidas são positivas diante do risco de falta de liquidez no sistema bancário, mas impactos do coronavírus na economia ainda são incertos

Luísa Melo Do CNN Brasil Business, em São Paulo
16 de março de 2020 às 12:33 | Atualizado 16 de março de 2020 às 16:28
 
Mesmo com estímulos monetários, confinar pessoas em casa tem forte impacto no PIB, diz Zeina Latif
Foto: Divulgação

O pacote de medidas do Conselho Monetário Nacional (CMN) para ampliar a oferta de crédito no país é mais importante do que um eventual corte dos juros, mas ainda insuficiente para acalmar o mercado e mitigar os impactos do coronavírus na atividade econômica, segundo Zeina Latif. 

O órgão anunciou nesta segunda-feira (16) que vai dispensar os bancos de aumentarem as provisões para cobertura de calotes em operações de renegociação nos próximos seis meses. Na sequência, os cinco maiores bancos do país divulgaram que poderão prorrogar por 60 dias os pagamentos de pessoas físicas e micro e pequenas empresas, flexibilidade que deve frear uma escalada da inadimplência.

Além disso, o CMN também expandiu a capacidade de uso de capital das instituições financeiras, reduzindo o tamanho da reserva obrigatória de recursos que elas devem ter ao baixar o "adicional de conservação de capital principal" de 2,5% para 1,25% por um ano. Juntas, as ações têm potencial para liberar R$ 3,8 bilhões em créditos. 

Os estímulos foram anunciados após o banco central dos Estados Unidos, o Federal Reserve, baixar os juros no país para um intervalo próximo de zero em reunião extraordinária na noite de domingo, além anunciar a compra de US$ 700 bilhões em bônus e títulos para dar liquidez ao mercado.

Para Zeina, os estímulos são positivos porque os bancos brasileiros poderiam de fato começar a enfrentar dificuldades para conceder crédito diante da escassez de recursos. Mas não tranquilizam os mercados porque o tamanho do impacto da pandemia de Covid-19 na economia ainda é incerto dados os crescentes novos casos da doença no Brasil.

“A gente pode de fato ter problemas de liquidez na economia, de crédito. Então esse anúncio foi mais importante do que o corte da Selic, na minha visão”, afirmou. “O ponto é que a gente entrou aqui, e também nos EUA, em uma espiral de novos casos. O medo é o de acontecer o que está acontecendo na Itália. Porque você faz tudo isso [dá estímulos monetários], mas ao mesmo tempo tem que confinar todo mundo em casa, aí não tem jeito, a queda do PIB é forte”, completou.

No país europeu, as mortes pelo vírus já passam de 1,8 mil e o governo decretou quarentena nacional.

Na visão da economista, até que se tenha mais clareza de como a pandemia vai evoluir e afetar a produtividade no país, os estímulos financeiros “são essenciais para não agravar”, mas insuficientes para conter a crise.

Os mercados reagiram com descrença aos estímulos nesta segunda-feira. Tanto no Brasil quanto nos EUA, as bolsas operam em intensa queda e chegaram a ter as negociações interrompidas pelo mecanismo de circuit breaker.